"Xotiska", Uxu Kalhus (Portugal) - trad-folk-rock, folk fusion
A abrirem a emissão, os Uxu Kalhus com o tema “Xotiska” – um cruzamento entre a chotiça (dança circular, também conhecida por polca alemã) e o ska jamaicano – extraído do álbum “A Revolta dos Badalos”, editado em 2006. A revolta faz-se precisamente pela subversão do folclore e pela reinvenção radical das raízes tradicionais à mistura com sons e instrumentos de todo o mundo. Neste seu último álbum, o grupo de folk fusionista, formado por Paulo Pereira, Celina Piedade, Vasco Casais, Hugo Meneses e Nuno Patrício, apresenta composições próprias e arranjos de temas tradicionais portugueses e europeus. Os sons das mazurcas, valsas, polcas ou marchas cruzam-se então com influências africanas ou com géneros como o jazz, o rock, o drum & bass ou o hip-hop. Acrescem ainda os timbres da flauta, acordeão, rauschpfeife (aerofone medieval de palheta dupla), guitarra eléctrica e acústica, baixo ou metalfone, os ritmos exóticos das percussões (bateria, bouzouki, darabuka, djembé, bombo, pandeiro ou didgeridoo), e, claro está, os chocalhos. Eles surgiram em 2000 em Gennetimes com o objectivo de levar as danças portuguesas até França. Hoje, o público é convidado a bailar não só ao som de viras, corridinhos e regadinhos, mais também de danças israelitas, sérvias ou austríacas. Em Junho, os Uxu Kalhus vão estar em Tavira (dias 2 e 27), Faro (dia 9), Abrantes (dias 10 e 22), Proença-a-Nova (dia 12) e São Pedro do Sul (dia 31)."Nova Galicia", Luar na Lubre (Espanha) - celtic folk/folk-rock
As músicas do mundo prosseguem com os embaixadores da folk celta contemporânea. Naturais da Corunha, os Luar Na Lubre trazem-nos “Nova Galicia”, tema retirado do álbum “Saudade”, lançado no ano passado. O mexicano Manuel María Ponce, um dos grandes compositores para guitarra a nível internacional, recriou este tema tradicional da Galiza, provavelmente influenciado pela comunidade galega existente no seu país. Com nove trabalhos editados, os Luar na Lubre defendem a cultura, a tradição e a música galegas, sem fecharem portas às influências externas. O grupo aposta agora na América do Sul, de onde emana a música que integra o seu último álbum. Bieito Romero, Patxi Bermúdez, Xulio Varela e Xan Cerqueiro são os quatro elementos que restam da banda original, criada em 1986 e que dez anos depois saltava para a ribalta internacional com o apadrinhamento de Mike Oldfield no seu disco “Voyager”. Neste trabalho os Luar na Lubre apresentam a vocalista que os acompanha há cerca de dois anos, a portuguesa Sara Vidal (que já tinha participado no álbum “Paraíso”), em substituição de Rosa Cedrón. Um disco onde resgatam velhas melodias e harmonias melancólicas, bem como poemas de García Lorca e de autores galegos da emigração, utilizando-os em temas que falam de nostalgia, do exílio e da saudade. Tudo numa homenagem à Galiza que chegou à América Latina e se fundiu com a cultura daquele continente, sem no entanto deixar de parte as suas raízes celtas."La Chanson du Quéteux", La Bottine Souriante (Canadá) - trad folk, world beat
"Cuchara del Poder", Terrakota (Portugal) - afrobeat, reggae, gnawa
"Life", Dub Incorporation (França) - dub-reggae, dancehall
"Tamatantelay", Tinariwen (Mali) - touareg music, rock, blues
"Mon Amour de Saint-Jean", Les Boukakes (França) - raï n'rock, afrobeat, reggae
Seguem-se Les Boukakes com o tema "Mon Amant de Saint-Germain", extraído do seu primeiro álbum "Makach Mouch’Kil" (Não Há Problema), editado em 2001. Este septeto masculino, nascido no exílio em 1998, é liderado pelo cantor argelino Bachir Mokhtare, incluindo músicos tunisinos e franceses. Os Boukakes foram buscar o nome à contracção de dois típicos insultos racistas: bougnoule (nome outrora dado aos africanos e magrebinos) e macaque (macaco). Uma reacção às referências menos abonatórias que costumavam receber quando se estrearam nas ruas. Sem fazerem comentários políticos ostensivos nas suas canções, os Les Boukakes apelam deliberadamente à resistência ao status quo e à ignorância generalizada. Letras que são combinadas com melodias orientais e instrumentos diversos como o karkabou/qarqabou (grandes castanholas metálicas marroquinas), a derbouka (instrumento de percussão magrebino), o bendir (outro instrumento de percussão), o tar (alaúde iraniano), o duf (espécie de pandeireta), a tabla, o banjo, a guitarra ou o baixo. O raï argelino ou o gnawa marroquino misturam-se então com géneros ocidentais como o rock, o groove e a música electrónica. Ao passar para os bares e festivais, o seu raï n'rock celebrizou-se, surgindo lado a lado com músicos e bandas como os Zebda, The Wailers, Manu Chao, Natacha Atlas, Taraf De Haïdouks, Cheikha Rimitti ou Rachi Taha.
"Afruvva", Mari Boine Persen (Noruega) - joik, jazz, blues

A norueguesa Mari Boine Persen apresenta-nos o tema “Afruvva” (A Sereia), extraído do álbum “Iddjagieđas” (Na Mão da Noite), lançado em 2006. Com mais de vinte anos de carreira, Mari Boine tem lutado pela preservação das tradições e pelo reconhecimento dos direitos dos seus compatriotas sami, povo que habita a Lapónia, território situado no norte da Escandinávia. Mari Boine cresceu numa altura em que ainda era proibido falar o dialecto sami nas escolas e cantar o joik (yoik em inglês). Graças à pesada herança da colonização cristã, o canto mais característico dos sami foi durante muito tempo visto como a música do diabo. Uma veia xamânica, assente numa escala pentatónica, da qual Mari Boine e o seu ensemble herdaram o ritmo, as batidas e a espiritualidade, lembrando os tempos em que o homem estava mais próximo da natureza. A voz mística da embaixadora dos sami, que canta também em inglês, mistura então o joik com os blues, o jazz, a pop, o rock e mesmo a música electrónica. São sons mais entoados que cantados, onde se evoca a beleza da terra e das montanhas, o sol da meia-noite nos meses de Verão ou as tradições pré-cristãs.
"Kielo", Kimmo Pohjonen (Finlândia) - folk-rock, electronic folk
O finlandês Kimmo Pohjonen traz-nos “Kielo”, um tema a solo retirado do álbum do mesmo nome, lançado em 1999. Com uma carreira repartida entre a folk, a música clássica e o rock, o músico e compositor Kimmo Pohjonen mistura de forma única o acordeão com amostras de som e percussões, levando-o para universos como a dança contemporânea ou o teatro musical. Pohjonen, que nasceu na aldeia de Viiala, começou a tocar acordeão aos oito anos. Na Academia Sibelius, em Helsínquia, absorveu a folk e misturou-a com outros estilos. Para expandir a sonoridade do fole diatónico, Kimmo adicionou ao acordeão cromático composições originais que integravam samples e loops do islandês Samuli Kosminen, com quem viria a formar o duo Kluster. Mais tarde, juntaram-se-lhes Pat Mastrelotto e Trey Jun, dando lugar ao quarteto Kluster TU. Entretanto, Pohjonen tem vindo a colaborar com músicos finlandeses como Heikki Leitinen, Maria Kalaniemi, Alanko Saatio ou Arto Järvellä, integrando ainda os grupos de new folk Pinnin Pojat e Ottopasuuna. Apesar dos mais de 13 quilos do acordeão, em palco Pohjonen movimenta-se energicamente, extraindo camadas de som a que adiciona a própria voz. Mais voltado para o formato acústico, Kimmo Pohjonen mantém como base as raízes e os cantos populares da Finlândia, tocando outros tipos de acordeão, a harmónica e a marimba. Tradição e improviso unem-se assim na busca de novos sons através da música experimental e electrónica.
"Acción!", Kevin Johansen (Argentina) - rumba, cumbia, world fusion
Kevin Johansen fecha o programa com o tema “Acción!”, retirado do seu segundo disco a solo “Sur o no Sur”, editado em 2002. Álbum onde o músico argentino, nascido no Alaska, envereda por canções que predominam sobre géneros tipicamente americanos mas, como ele próprio diz, “desclassificados”: o tango, o bolero, a ranchera mexicana, a rumba catalã, o samba celta, a bossanova, a cumbia flamenca, o tex-mex, o zydeco ou a milonga, habilmente cruzados com a pop, o hip-hop ou o funk. Kevin Johansen passou a sua adolescência em Buenos Aires, mas desde muito cedo que começou a percorrer o mundo de guitarra debaixo do braço. Depois de ter vivido alguns anos em São Francisco, Manhattan e Nova Iorque, no final dos anos 90 o compositor decidiu então regressar à Argentina e explorar as suas referências folclóricas, deixando para trás uma breve experiência pop-rock no grupo Instrucción Cívica. Hoje, juntamente com a sua banda The Nada, Kevin Johansen interpreta temas em castelhano, inglês ou mesmo “espanglês”, mistura de estilos e linguagens onde o humor, o sarcasmo e a ironia estão sempre presentes. Um desenraizamento sonoro, imagem de marca da Argentina actual, onde se prova que o futuro da música passa mesmo pela mistura.
Jorge Costa
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