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sexta-feira, 28 de julho de 2006

Emissão #19 - 29 Julho 2006

A 19ª emissão do MULTIPISTAS - MÚSICAS DO MUNDO, difundida no sábado, 29 de Julho, entre as 17 e as 18 horas, na Rádio Urbana (Castelo Branco - 97.5 FM; Fundão, Covilhã e Guarda - 100.8 FM), vai de novo para o ar na segunda-feira, 31 de Julho, entre as 19 e as 20 horas.

"Vihma",
Värttinä (Finlândia) - traditional finnish folk/suomirock
As Värttinä, que mais logo (sábado) vão estar no Festival de Músicas do Mundo de Sines, a abrirem a emissão com “Vihma” (Granizo), tema extraído do álbum do mesmo nome, editado em 1998. A mais conhecida banda da folk contemporânea finlandesa, que este ano celebra o seu 23ºaniversário, traz-nos uma apelativa mistura de pop e rock ocidental com folk europeia e nórdica. As Värttinä são conhecidas por terem inventado uma visão contemporânea da tradição vocal feminina e da poesia popular da Carélia, uma região isolada na fronteira entre a Finlândia e a Rússia, reforçando as letras emocionais com ritmos em fino-úgrico, idioma antecessor do finlandês. Alguns temas deste sétimo disco das Värttinä incluem também cantos da república russa de Tuva. O grupo, que nasceu em Raakkylaa, é hoje formado pelas vozes enérgicas e harmónicas de Mari Kaasine, Johanna Virtanen e Susan Aho, suportadas por seis músicos acústicos que aliam a instrumentação tradicional e contemporânea (feita à base da guitarra, violino, acordeão, baixo e percussões) aos ritmos complexos e arranjos modernos. Uma base rítmica sólida e o mesmo vigor e calor vocal de sempre.

"O Fim da Picada",
Gaiteiros de Lisboa (Portugal) - portuguese folk
As músicas do mundo prosseguem com os Gaiteiros de Lisboa, que esta semana também estiveram no Festival de Músicas do Mundo de Sines. Eles trazem-nos “O Fim da Picada”, tema extraído do seu último trabalho “Sátiro”, editado em Junho. Cada vez mais voltados para o Mediterrâneo, neste seu quarto trabalho de originais os Gaiteiros de Lisboa abarcam desde os sons de Trás-os-Montes às polifonias alentejanas, passando pelo fado. São convidados Mafalda Arnauth, que canta um poema de Florbela Espanca, e o violinista Manuel Rocha, da Brigada Vítor Jara. Desde 1991 que os Gaiteiros de Lisboa criam de forma inovadora música tradicional portuguesa, baseando-se para isso nas tradições vocais, nos ritmos do tambor e na sonoridade das gaitas e flautas, que dão à sua música um ar medieval. Os músicos deste grupo, que utilizam ainda a sanfona, a trompa, a tarota (oboé catalão) e o clarinete, têm colaborado em projectos de rock, jazz ou música clássica com José Afonso, Sérgio Godinho, Vitorino, Amélia Muge, Carlos Barretto, Rui Veloso, Sétima Legião ou Adufe. O seu experimentalismo constante leva-os a reinventar ou criar instrumentos como os “túbaros de Orpheu” (aerofone múltiplo de palhetas simples), a “cabeçadecompressorofone” (aerofone de percussão) ou o “clarinete acabaçado” (aerofone de palheta simples). Neste trabalho juntam-se-lhes ainda os cordofones, os flautões (aerofones de arestas) e o sanfonocello (sanfona baixo). Um ambiente de festa, recheado de sons desconhecidos e de percussões populares.

"Montañés",
Rarefolk (Espanha) - freestyle folk/folk-rock
Os Rarefolk trazem-nos o tema “Montañés”, extraído de “Unimaverse” (um jogo de palavras entre os conceitos de unidade e universo), terceiro trabalho dos sevilhanos mais audazes do freestyle folk, onde a banda mistura de forma criativa o universo do rock e da electrónica com a música africana, celta, oriental e até mesmo o jazz. Os Rarefolk começaram por fazer folk num estilo puro, mas pouco a pouco foram renovando não só a banda mas também a sua visão, fundindo influências do norte da Europa e do norte de África e submergindo-se num novo universo de estilos e ritmos. Depois de se terem dado a conhecer como Os Carallos na exposição mundial de Sevilha, em 1992, uma editora recém-criada oferece-se para editar o seu primeiro disco. Mais tarde criavam a “Fusión Art”, gravando eles próprios e de forma artesanal o álbum “Unimaverse”. Um trabalho ousado e experimental em que recuperam muita da frescura e simplicidade inicial. Nele participam a violinista escocesa Michelle McGregor e o percursionista senegalês Sidi Samb – este último responsável pelas letras do grupo, interpretadas em castelhano, francês e wolof (dialecto do Senegal) –, e músicos como DJ Abogado del Diablo (Narco), Andreas Lutz (O’Funkillo) e a senegalesa Fátuo Diou.

"Ilham", Souad Massi (Argélia) - argelian folk, chaâbi
Segue-se Souad Massi com “Ilham” (Inspiração), tema onde esta evoca as suas raízes berberes e a música tuaregue. Considerada a Tracy Chapman do Magrebe, Souad Massi trouxe uma nova inspiração folk à música argelina. Esta jovem muçulmana, que se recusa a falar em nome do Islão e a ser uma activista da causa berbere, nunca tocou uma nota de raï. O seu gosto, mais orientado para o rock ocidental, o chaâbi e a música andaluza, fê-la criar um estilo único. A nostalgia e a dor do exílio são os temas centrais deste seu último trabalho, o álbum "Mesk Elil", editado no ano passado. Desde 1999 que a jovem vive exilada em França. Numa ida à Tunísia para realizar mais um concerto reencontrou os aromas da madressilva, uma planta que lhe fez lembrar a sua infância na Argélia e que daria o nome ao seu terceiro álbum. Na adolescência, Souad Massi acompanhou com a sua guitarra o grupo de flamenco Triana d'Alger e mais tarde a banda argelina de rock Atakor. Durante a vaga da jeel music (a pop oriental), regressa à música country, universo sonoro em que se inspirou, acabando por cruzar os tormentos da música argelina com os prazeres melódicos do Ocidente.

"N'Ta Goudami", Cheikha Rimitti (Argélia) - raï, châabi, gnawa music
A argelina Cheikha Rimitti (falecida no passado mês de Maio, aos 83 anos) com o tema “N’Ta Goudami”, extraído do álbum do mesmo nome, editado em 2005. Órfã e rodeada de pobreza, aos vinte anos Rimitti junta-se aos músicos ambulantes Hamdachis, cantando e dançando em cabarés. Nas mais de 200 canções que escreveu fala das alegrias e das tristezas da vida, quebrando tabus ao abordar temas como a sexualidade feminina, o alcoolismo ou a guerra. A vida boémia e a sua rebeldia feminista forçam-na ao exílio em França nos anos 60, país onde encontraria um novo público, chegando a gravar um disco de pop-raï com o rocker experimental Robert Fripp. Cheikha (sénior) Rimitti realizou concertos em todo o mundo, associando-se a nomes como Oum Keltoum, Cheikha Fadela ou mesmo os Red Hot Chilli Peppers. A mãe do raï é uma referência para as estrelas mais jovens deste género, não só pela liberdade de expressão que conquistou e pela rebeliião linguística e moral, mas também por lembrar que a fé espiritual pode coexistir com o prazer físico. O seu último album foi gravado em Oran, berço do raï. Um trabalho com marcas daquela cidade, sintetizador de voz e caixa de ritmos, onde a voz áspera e suave de Rimitti é combinada com acústica moderna e instrumentos tradicionais como o bendir (instrumento de percussão), o tar (alaúde iraniano), a gasbâ (flauta tunisina) e a gallal (uma espécie de pandeireta). Tudo à mistura com influências africanas do gnawa, harmonias árabe-andalusas do châabi e improvisos da soul argelina.

"M'Be Ddemi", Cheikh Lô (Senegal, Burkina-Faso) - afropop, mbalax
A jornada prossegue com Cheik Lô e o tema “N’Jariñu Garab” (A Árvore). Cheikh Lô vive em Dakar, a capital do Senegal, mas nasceu e cresceu no Burkina-Faso. A sua música constrói-se a partir da pop característica daquela cidade e dos ritmos mbalax, bem ao estilo do conhecido senegalês Youssou N'Dour, que produziu o seu primeiro álbum em 1995. Cheik Lô foi membro da Orchestre Volta Jazz, a qual tocava sucessos cubanos e congoleses, bem como versões pop de músicas tradicionais do Burkina-Faso. Em 1978 mudava-se para o Senegal, onde começa por tocar com várias bandas. A música acústica e eléctrica de Cheik Lô, que fez dele uma estrela no Senegal e na Europa, explora ainda elementos de salsa, rumba congolesa, folk e jazz, bem como impulsos de reggae, soukous e um sabor a Brasil. No album “Bambay Gueej” (Bamba, Oceano de Paz), editado em 1999, Cheikh Lô adorna estes elementos com o funk e a soul. De novo uma floresta de percussões, guitarra acústica e sons afro-cubanos.

"Nafiya", Mory Kanté (Guiné-Conacri) - afropop, kora music
Atrás Mory Kanté, um dos mais conhecidos cantores e multi-instrumentistas africanos. Ele trouxe-nos “Nafiya” (Pessoas Más), um tema sarcástico contra a falta de entreajuda entre o povo africano, extraído do álbum “Sabou” (Causa). Um trabalho lançado em 2004 e que mistura sons contemporâneos e tradicionais, fundindo melodias griot e batidas funk. Sem abandonar a guitarra acústica e o estilo eléctrico, Mory Kanté regressa às suas raízes guienenses com um álbum acústico dominado por instrumentos tradicionais africanos como a kora (espécie de harpa) e o balafon (espécie de xilofone africano), quase sempre tocados por ele. Ao fazê-lo, segue o exemplo de Youssou N’Dour e Salif Keita que, para fazerem álbuns mais tradicionais, abandonaram estilos orientados para a pop. Neste trabalho, o músico é acompanhado por coros femininos, onde se apresentam vozes como Mariamagbe Mama Keita, e por um painel de luxo de instrumentistas como o flautista africano Babagalle Kante. Natural da Guiné-Conacri e herdeiro da tradição dos griots, Mory Kanté tornou-se conhecido ao juntar-se na década de 70 à Rail Band, de Bamako, no Mali, grupo cujo som combinava o funk e a música tradicional. O estrelato viria nos anos 80 quando o músico se mudou para Paris. Em 1987, com a edição em França do seu terceiro álbum, o funk mandingo de Kanté triunfava finalmente. Graças à música “Yéké Yéké”, ele foi o primeiro artista africano a vender um milhão de singles. Para além de música, actualmente Mory Kanté é também embaixador das Nações Unidas na luta contra a fome.

"Galicia", Urban Trad (Bélgica) -
techno folk
Entretanto seguimos pelos caminhos da folk urbana com os belgas Urban Trad, que nos trazem o tema “Galicia”, extraído do álbum “Kerua”, editado em 2003. Como o próprio nome indica, os Urban Trad combinam a melhor música tradicional com ritmos modernos, criando uma folk influenciada por um ambiente techno. O projecto arrancou em 2000, quando Yves Barbieux, compositor da banda Coïncidence, decidiu reunir uma vintena de artistas da cena tradicional belga para misturar música celta com sons urbanos. Se inicialmente se tratava de conceber um primeiro álbum, o êxito alcançado encorajou o autor a juntar outros músicos aos Urban Trad. No Festival Eurovisão da Canção realizado na Letónia em 2003, os oito elementos do grupo conquistam o segundo lugar e o grande público. Com “Sanomi”, uma canção interpretada num idioma imaginário, levaram pela primeira vez o característico timbre da gaita-de-foles ao palco da Eurovisão. Um grupo de música de inspiração tradicional, mas ancorado no presente, já que instrumentos acústicos como o acordeão, o violino e a flauta são acompanhados pelo canto e por uma secção rítmica cheia de energia e musicalidade. Volvidos três álbuns, o repertório dos Urban Trad passou a abranger, para além da música celta, a Escandinávia, a França, a Espanha e os países de Leste. É assim a música tradicional europeia do século XXI.

"Se Escaparon",
Bombon (Hunduras) - ragamuffin, son, funk
O programa encerra com o tema "Se Escaparon", uma história de rebelião juvenil que fala de raparigas que fogem de casa às escondidas e são surpreendidas na pista de dança pelo pai, que pensava que elas estavam a dormir. A narrativa musical pertence aos hondurenhos Bombon, radicados em Miami e que criam um estilo musical moderno, feito da mistura de ragamuffin jamaicano, son cubano e funk. A crescente influência da música latina a nível internacional tem contribuído para que esta se desenvolva fora do seu território geográfico natural. Um interesse explicado pelos ritmos e melodias apelativas, embora actualmente a sua fluência sonora cada vez mais se deva à sucessiva mistura com o universo da dança e com estilos urbanos contemporâneos afro-americanos. E ainda que a música latina vá retendo elementos da tradição, esta está em constante mudança e evolução. Uma equação onde entram, entre outros, o funk, o hip-hop, a soul, o rhythm & blues ou o rock, mas onde o resultado continua a ser sempre a fórmula perfeita para um ambiente de “fiesta”.

Jorge Costa

sexta-feira, 30 de junho de 2006

Emissão #15 - 1 Julho 2006

A 15ª emissão do MULTIPISTAS - MÚSICAS DO MUNDO, difundida no sábado, 1 de Julho, entre as 17 e as 18 horas, na Rádio Urbana (Castelo Branco - 97.5 FM; Fundão, Covilhã e Guarda - 100.8 FM), vai de novo para o ar na segunda-feira, 3 de Julho, entre as 19 e as 20 horas.

"Here"
, Salif Keita (Mali) - afropop, mandingo
Salif Keita abre o programa desta semana com o tema “Here”, uma versão remisturada pelo francês Frédéric Galliano, extraída do álbum “Remixes From Moffou”. Exímio guitarrista, Salif Keita começou a sua carreira nos anos 60 na Rail Band e nos Ambassadeurs. Com a sua aproximação ao rock, ao jazz e à soul, o músico do Mali inaugurava o conceito de afropop. Em 2002 lança o álbum “Moffou” e inicia uma nova carreira, antecipando o renascimento da música tradicional mandingo e dos seus principais instrumentos, como a ngoni (espécie de guitarra mourisca), o balafon (xilofone ancestral) ou o calabash (instrumento de percussão). Mais tarde, neste “Remixes From Moffou”, DJ’s e produtores como Gekko, Ark, Cabanne, Tim Paris, The Boldz, Luciano, La Funk Mob, Charles Webster, Doctor L, Cyril K e Paul St Hilaire adaptam a música de Salif Keita aos cânones da electrónica, acrescentando-lhes novos instrumentos e atmosferas sonoras influenciadas pelo funk, house, dub e drum’n bass. Foi precisamente isso o que o francês Frédéric Galliano fez neste tema. Pioneiro na mistura da música africana com a electrónica, em 1998 Galliano faz a sua primeira viagem a África, criando dois anos mais tarde a editora Frikyiwa, na qual viria a juntar artistas africanos que conhecera ao longo das suas jornadas. Desde então que participa em diferentes projectos com diversas bandas como o Frédéric Galliano Electronic Sextet (que mistura o jazz com a música electrónica), Nahawa Doumbia (cantora e banda do Mali com quem começou por explorar a relação entre a música electrónica e africana), Néba Solo, a Orchestre Maquisard International e The African Divas.

"Leiley [Transglobal Underground Remix]", Dania (Líbano) - arabic music
A jornada musical prossegue com a libanesa Dania, que nos traz o tema “Leily”, uma poderosa canção remisturada pelos Transglobal Underground (mais conhecidos pelo seu trabalho com lendas do rock como Jimmy Page e Robert Plant) e que varreu as pistas de dança do Dubai a Bogotá. Dania começou por trabalhar como apresentadora numa televisão local libanesa. O seu talento foi então descoberto por um canal de música difundido por satélite para a Ásia e Médio Oriente. Junta-se então ao Channel V em 1995, tornando-se a primeira VJ árabe num canal internacional de televisão. Mais tarde muda-se para a Abu Dhabi TV, onde apresenta o mais conhecido programa árabe de entretenimento. Com o álbum de estreia, que foi um enorme sucesso na região, consolida a sua jovem carreira na cena musical árabe. Neste segundo trabalho ”Dania II”, lançado em 1999, a cantora ilustra as suas habilidades e versatilidade vocal. Uma mistura única e eclética de influências árabes, inglesas, espanholas e gregas, que apela a todas as nacionalidades, tendo aparecido numa série de compilações em todo o mundo e em vários canais como a MTV.

"Azara Alhai", Rasha (Sudão) - jazz fusion, sudan folk
Incursão até ao Sudão com o tema “Azara Alhai”, interpretado por Rasha, uma voz que encarna na perfeição todo o mistério e sensualidade do oriente. O seu talento revelou-se muito cedo, já que na sua família não faltam pintores, actores e músicos. A dureza do regime islâmico militar do Sudão obriga Rasha a abandonar Ondurman, a sua terra natal, localizada junto a Jartum, a capital do Sudão. Depois de uma breve passagem pelo Cairo, em 1991 muda-se para Espanha, país onde residem os seus irmãos Omaima e Wafir, este último membro dos Radio Tarifa. Nos primeiros anos, Rasha estuda e trabalha, mas pouco a pouco, pela mão de Wafir, vai-se introduzindo nos circuitos musicais. Em 1994 grava o álbum “Sudaniyat”, carta de apresentação como cantora, onde mostra uma visão muito pessoal da tradição das correntes mais actuais da música do país imenso que é o Sudão. Um disco que recebe grandes elogios da crítica europeia e chega mesmo ao mercado norte-americano. Entretanto, Rasha tem vindo a tocar com outros artistas africanos, todos eles radicados em Madrid. Na sua música, que nos arranjos vocais se aproxima à árabe e nos metais ao jazz, expressa as suas ilusões e nostalgias, denunciando também a situação actual do povo sudanês e os problemas que milhares de emigrantes enfrentam.

"Yann Derrien", Carlos Núñez (Espanha) - celtic music
A viagem musical continua com o tema “Yann Derrien”, de Carlos Nuñez, provavelmente o mais conhecido gaiteiro galego de sempre, que encabeça uma lista tradicionalmente reservada a escoceses, irlandeses ou bretões. Considerado o Jimi Hendrix da gaita e exímio tocador de flauta, whistle e ocarina, este produtor e compositor, natural de Vigo e apaixonado pelos poemas de Rosalía de Castro, começou a tocar gaita aos oito anos. O sucesso estrondoso do seu primeiro disco “A Irmandade das Estrelas”, gravado em 1996 e que vendeu mais de cem mil cópias em Espanha, chamou a atenção para a música tradicional galega. Carlos Núñez adiciona-lhe então uma visão mais aberta, aproveitando a ligação histórica desta à música latina vinda da América através da imigração, à medieval europeia recebida pelo caminho de Santiago e aos sons orientais do sul. Em todo o mundo, Carlos Núñez e a sua banda já venderam mais de um milhão de discos, algo reforçado depois do êxito da banda sonora de Mar Adentro. Em "Un Galicien en Bretagne" este conta de novo com a colaboração de alguns dos mais importantes nomes da folk europeia, caminho aberto em 1989 depois do convite dos The Chieftains para participar na banda sonora do filme "A Ilha do Tesouro", que o nomearam sétimo elemento do grupo. Com as suas participações nos festivais celtas em França, Carlos Núñez tornou-se no mais bretão dos galegos. Neste álbum, editado em 2003, reencontra-se com o bretão Alan Stivell e o catalão Jordi Savall, mobilizando outros artistas galegos devido ao Prestige, tragédia ambiental que um ano antes afectou as costas espanhola e francesa.

"Danza dos Esqueletes", Luar Na Lubre (Espanha) - celtic folk
Regresso à Galiza com os embaixadores da folk celta contemporânea, que a 22 de Julho vão estar no festival Tom de Festa, em Tondela. Naturais da Corunha, os Luar Na Lubre trouxeram-nos o tema “Danza dos Esqueletes”, extraído do álbum “Saudade”, editado este ano. Uma música que presta homenagem aos gaiteiros que tiveram de deixar a sua terra e com eles levaram a sua música, como são os casos de Manuel Dopazo, Castor Cachafeiro e Antonio Mosquera. Com nove trabalhos editados, os Luar na Lubre defendem a cultura, a tradição e a música galegas, sem fecharem portas às influências externas. O grupo é uma presença constante em muitos festivais em Espanha e na Europa, mas a sua aposta centra-se agora na América do Sul, de onde emana a música que integra o seu último álbum. Bieito Romero, Patxi Bermúdez, Xulio Varela e Xan Cerqueiro são os quatro elementos que restam da banda original, criada em 1986 e que dez anos depois saltava para a ribalta internacional com o apadrinhamento de Mike Oldfield no seu disco “Voyager”. Neste trabalho os Luar na Lubre resgatam velhas melodias e harmonias melancólicas, bem como poemas de García Lorca e de autores galegos da emigração, utilizando-os em temas que falam de nostalgia, do exílio e da saudade. Tudo numa homenagem à Galiza que chegou à América Latina e se fundiu com a cultura daquele continente.

"Les Yeux Noirs", Coco Briaval (França) - gypsy swing, jazz, blues
A jornada prossegue com o guitarrista Coco Briaval, que nos traz o tema “Les Yeux Noirs”, extraído do álbum “Musique Manouche – Gypsy Music”, editado em 1996. Nos anos 60 e antes de se instalar no sul de França, Coco Briaval foi um dos maiores nomes do jazz parisiense, tendo tocado lado a lado com músicos reputados como o saxofonista americano Dexter Gordon ou o soul singer Otis Redding. Com a gravação de um primeiro disco, revelava-se o talento precoce dos irmãos Briaval, três adolescentes que então formaram Coco Briaval Gypsy Swing Quintet, homenageando grandes compositores e intérpretes de jazz como Charli Christian e Wes Montgomery. O desafio era tornar a tradição do jazz acessível a todos os públicos, mostrando o carácter familiar do gypsy swing, tal como Django Reinhardt o fez com o seu génio instrumental e talentosa composição. Um sonho que acabou por ser realizado por estes rapazes de origem piemontesa do lado da mãe (ciganos de etnia sinti) e anglo-húngaro do lado do pai (ciganos alemães). Com os seus dois irmãos René e Gilbert na guitarra e na bateria, o seu filho Zézé no saxofone e ainda Guitou no contrabaixo, Coco Briaval propõe uma visão de Django sem clichés. Eles mergulham na música cigana de etnia sinti, transmitida de geração em geração, mas resgatada para o presente numa orquestração original, deixando-se influenciar também pelo swing e pela música contemporânea.

"Sempre Di Domenica", Daniele Silvestri (Itália) - pop, rock, funk
Na sua estreia no programa, Daniele Silvestri apresentou-nos o tema “Sempre Di Domenica”, extraído do seu álbum “Unò Dué”, editado em 2002. Este cantor italiano, autor de conhecidos temas de música ligeira, mergulha no imaginário contemporâneo linguístico e musical daquele país para emergir com canções refinadas. Natural da cidade de Roma, onde nasceu em 1968, o cantautor italiano mais apreciado do panorama actual fez parte de numerosos grupos musicais. Em 1994 lança o primeiro álbum a solo, conquistando a atenção do público. Um dos temas permite-lhe então participar no Festival de Sanremo, onde conquistaria vários prémios da crítica. Nos temas incluídos neste trabalho, o sexto da sua carreira, Daniele Silvestri confirma a sua qualidade enquanto autor, servindo-se de ironia quanto baste e cruzando a música pop com o rock e o funky.

"One For Senegal", Touré Kunda (Senegal) & The Pleb (Itália) - afro-rock, mbalax
O italiano The Pleb propõe-nos agora uma ponte com o Senegal na sua remistura de “One For Senegal”, um tema dos Touré Kunda, dueto formado pelos irmãos Ismaïla Touré e Sixu Tidiane. Na sua adolescência, este DJ estabelecido em Nova Iorque fez parte do universo musical londrino, tendo passado no início dos anos 90 pela banda The Indians. Já os senegaleses Touré Kunda, banda fundada nos anos 70 pelos irmãos Amadou, Ismaila, Sixu e Ousamane Touré, inspiraram-se inicialmente nos ritmos tradicionais africanos, usando instrumentos como a kora, o balafon e o sabar, os quais no entanto viriam a ser substituidos por guitarras e sintetizadores. No final dos anos 70 eles mudam-se para Paris, tocando uma forma particular de mbalax, inspirada no afro-rock a que chamaram de djambaadong. Percussões africanas tradicionais e cantos tribais senegaleses coexistem então com amostras de som, batidas programadas e manipulação de vozes, retratando um universo geográfico onde se fala em soninké, ouolof, mandingo, diola e criolo português.

"Sou", Cheikh Lô (Senegal, Burkina-Faso) - afropop, mbalax
Entretanto continuamos estrada fora ao ritmo da melhor música do mundo. Cheikh Lô traz-nos o tema “Sou”, extraído do álbum “Lamp Fall”, editado em 2005. Cheikh Lô vive em Dakar, a capital do Senegal, mas cresceu no Burkina-Faso. A sua música constrói-se a partir da pop característica daquela cidade e dos ritmos mbalax, bem ao estilo do conhecido senegalês Youssou N'Dour, com quem gravou o primeiro álbum em 1995. Cheik Lô foi membro da Orchestre Volta Jazz, a qual tocava sucessos cubanos e congoleses bem como versões pop de músicas tradicionais do Burkina-Faso. Em 1978 mudava-se para o Senegal, onde começa por tocar com várias bandas. A música acústica e eléctrica de Cheik Lô, que fez dele uma estrela no Senegal e na Europa, explora ainda elementos de salsa, rumba congolesa, folk e jazz, bem como impulsos de reggae, soukous e um sabor a Brasil. A 6 de Julho ele vai estar em Lisboa para participar no Africa Festival.

"Hit The Road Jack [Album Version]", Mo' Horizons (Alemanha) - bossanova, nujazz, soul
Os Mo'Horizons, dupla de Hannover formada pelos produtores, músicos e DJ’s Ralf Droesemeyer e Mark ‘Foh’ Wetzler, encerram esta edição do MULTIPISTAS. No seu primeiro trabalho, estes misturam influências da soul dos anos 50 e 60 e temas funky dos anos 70 à década de 90. Eles integram técnicas modernas de produção com uma mão cheia de músicos talentosos e vocalistas que criam ao vivo um som variável no estilo mas homogéneo e identificável como sendo dos Mo’Horizons. Ao fundirem soul, funk, nujazz, afro, bigbeat, boogaloo, dub, bossanova e salsa com a downbeat, o drum‘n’bass e o triphop, eles quebram todas as fronteiras e barreiras musicais. Neste tema “Hit the Road Jack (Pé na Estrada), extraído do álbum “Some More Horizons”, editado em 2005, os Mo’Horizons pegam num clássico dos anos 60 de Ray Charles, adicionando-lhe um cheirinho a português do Brasil.

Jorge Costa

sábado, 10 de junho de 2006

Emissão #12 - 10 Junho 2006

A 12ª emissão do MULTIPISTAS - MÚSICAS DO MUNDO, difundida no sábado, 10 de Junho, entre as 17 e as 18 horas, na Rádio Urbana (Castelo Branco - 97.5 FM; Fundão, Covilhã e Guarda - 100.8 FM), vai de novo para o ar na segunda-feira, 12 de Junho, entre as 19 e as 20 horas.

"La Realité", Amadou & Mariam (Mali) - afro pop blues
A dupla Amadou & Mariam traz-nos os sons do Mali com o tema “La Realité”, extraído do álbum “Dimanche a Bamako”. Este trabalho, lançado em França em Novembro de 2004, chegou no verão passado ao segundo lugar das tabelas de vendas, o mais alto posto alguma vez alcançado na Europa por um disco africano. Em todo o mundo “Dimanche a Bamako” já vendeu cerca de meio milhão de cópias. Bem ao género do afro pop blues, e com muita guitarra à mistura, este trabalho está recheado de ritmos africanos, batidas funky, harmonias suaves e pedaços de reggae, jazz, blues e rock. Se nos anos 90 foram os Buena Vista Social Club a trazerem para a ribalta a vibrante world music, agora é a vez deste casal africano. Mariam começou por cantar em casamentos e festivais tradicionais, enquanto que Amadou era guitarrista nos Les Ambassadeurs, uma das mais lendárias bandas africanas. Os dois são invisuais e conheceram-se em 1977 em Bamako, a capital do Mali, fundindo então as suas carreiras. Três anos depois casavam e davam o primeiro concerto juntos.

"M'Be Ddemi", Cheikh Lô (Senegal, Burkina-Faso) - afropop, mbalax
Cheikh Lô apresenta-nos o tema “M’Be Ddemi” (A Rua), extraído do álbum “Bambay Gueej”, editado em 1999. Cheikh Lô vive em Dakar, a capital do Senegal, mas nasceu e cresceu no Burkina-Faso. A sua música constrói-se a partir da pop característica daquela cidade e dos ritmos mbalax, bem ao estilo do conhecido senegalês Youssou N'Dour, que produziu o seu primeiro álbum em 1995. Cheik Lô foi membro da Orchestre Volta Jazz, a qual tocava sucessos cubanos e congoleses, bem como versões pop de músicas tradicionais do Burkina-Faso. Em 1978 mudava-se para o Senegal, onde começa por tocar com várias bandas. A música acústica e eléctrica de Cheik Lô, que fez dele uma estrela no Senegal e na Europa, explora ainda elementos de salsa, rumba congolesa, folk e jazz, bem como impulsos de reggae, soukous e um sabor a Brasil. No album “Bambay Gueej” (Bamba, Oceano de Paz), Cheikh Lô adorna estes elementos com o funk e a soul. De novo uma floresta de percussões, guitarra acústica e sons afro-cubanos.

"We Were Gonna", Dengue Fever (Cambodja, EUA) - khmer rock, cambodian folk, pop
Os Dengue Fever com “We Were Gonna”, um tema extraído do álbum “Escape From Dragon House”, editado em 2005. Nos últimos sessenta anos o rock, com as suas notas de guitarra e percussões, influenciou profundamente numerosos géneros musicais e artistas que o misturaram com híbridos funky de todo o mundo. Foi o que aconteceu com os Dengue Fever, um sexteto de Los Angeles, liderado pela estrela da pop do Cambodja Chhom Nimol. Estes cantam em khmer, juntando os ritmos da pop cambodjana dos anos 60 – altamente influenciada pelo rock americano e pelas primeiras bandas de garagem psicadélicas do vizinho Vietname – com a sua própria panóplia eclética de estilos. A música dos Dengue Fever inclui ecos das bandas sonoras de Bollywood, soul etíope, rhythm & blues americano e folk do Cambodja. São sons locais misturados com rock de todo o planeta.

"Neem", Thierry 'Titi' Robin (França) - indian music, folk, rock
Thierry Robin, mais conhecido por Titi, traz-nos um tema extraído do álbum “Alezane”, editado em 2004. Uma antologia das gravações realizadas ao longo de doze anos por este músico, natural do sul de França, e que abrange 25 anos de composição. O arranjo do tema tradicional Neem remete-nos para o pungi, o instrumento do encantador de serpentes usado no Rajastão, que aqui é tocado por Banwari Baba, tendo como acompanhamento a voz de Saway Nath, um dos mais inventivos cantores da comunidade Kalbeliya daquele estado indiano. Em 1984, Thierry Robin, tocador de guitarra, alaúde árabe e bouzouki, produziu o seu primeiro trabalho com o indiano Hameed Khan. Mais tarde desenvolveria com o cantor bretão Erik Marchand um reportório de composições combinando o estilo de improvisação modal oriental taqsîm com o gwerz, um antigo lamento monofónico. A ligação à moderna folk ocidental surgiria com o Erik Marchand Trio, um mosaico de artistas que vai do norte da Índia à Andaluzia, passando pelos Balcãs. O resultado foi Kali Gadji, um novo grupo cuja orquestração incluía o saxofone, batidas e baixo. Titi Robin mistura então influências ciganas e orientais com rap francês e polirritmos sul-africanos, criando uma barreira entre a música étnica ocidental – feita de misturas de rock e jazz – e as restantes músicas do mundo. Um caminho encorajado por artistas como os cantores de flamenco Fosforito e Chano Lobato, ou o virtuoso tocador de alaúde árabe Munir Bachir.

"Iledeman",
Etran Finatawa (Níger) - wodaabe and touareg music
No tema “Iledeman”, extraído do álbum “Introducing Etran Finatawa”, editado este ano, os Etran Finatawa levam-nos por uma travessia no deserto. Uma música que faz referência a uma famosa duna situada junto à cidade de Tchin-Tabaradene, no noroeste do Níger. Poderosa e hipnótica, a música dos Etran Finatawa combina instrumentos tradicionais e canções polifónicas dos wodaabe e dos tuaregues com arranjos modernos e guitarras eléctricas, criando um som único e inovador que demonstra como nas suas culturas a música continua a ser um meio terapêutico. Em 2004, seis músicos wodaabes e quatro tuaregues juntaram-se para formar esta banda. Os tuaregues e os wodaabe são dois dos grupos étnicos nómadas que vivem na savana do Sahel, no sul do Sáara. Uma região que durante milhares de anos foi ponto de passagem entre os árabes do norte de África e as culturas subsarianas. Enquanto que os wodaabe são nómadas do deserto, conhecidos pelos seus rebanhos e gado; os tuaregues são famosos criadores de camelos, facilmente identificáveis pelas pinturas no rosto. E apesar das suas culturas e línguas serem muito distintas, os Etran Finatawa (As Estrelas da Tradição) ultrapassaram as fronteiras étnicas e o racismo, trabalhando juntos para construírem um futuro melhor para os seus povos. Entretanto, a banda tornou-se famosa no Níger e foi convidada para participar em festivais no Mali e em Marrocos, tendo no ano passado feito uma tournée pela Holanda, Alemanha e Suiça.

"Muiñeira de Chandada", Milladoiro (Espanha) - celtic folk
Os Milladoiro trazem-nos o tema “Muiñeira de Chandada”, extraído do álbum “Castellum Honesti”, editado em 1991. Um trabalho de temas tradicionais galegos, gravado dois anos antes em Dublin, na Irlanda. Em 2005 os oito membros do grupo festejaram os 25 anos de actividade. Durante este período de tempo eles editaram 17 discos, deram mais de mil concertos em todo o mundo e realizaram diversos trabalhos para o cinema, teatro e televisão, tendo tocado lado a lado com músicos como os The Cheiftains, Liam O'Flynn, Oskorri, Fuxan Os Ventos, Susana Seivane ou Emilio Cao. Os Milladoiro representam não só um género musical, mas também a língua e a forma de ser dos galegos (não é por acaso que eles são considerados a voz da terra, a voz que vem mais além da história). A paixão deste grupo pela música e pela Galiza tem como referência o caminho de Santiago, isto porque os milladoiros eram quem guiava os pasos dos peregrinos até Compostela. Os Milladoiro transformam os ritmos e melodias tradicionais da Galiza em música contemporânea sem fazerem concessões à pop ou fusões com géneros similares. A sua música baseia-se nas influências europeias deixadas na região, herança que tem sido transmitida ao longo de várias gerações anónimas de músicos tradicionais. Para além de evitar o cliché celta, a mítica banda galega reivindica os seus ingredientes provençais, centro-europeus e mesmo árabes. Depois de 25 anos a tirarem o pó a cancioneiros e melodias, os Milladoiro continuam a fazer com que as heranças musicais da Galiza não caiam no esquecimento.

"Domingo Ferreiro",
Luar Na Lubre (Espanha) - celtic folk
De novo uma viagem até à Galiza com os embaixadores da folk celta contemporânea. Os Luar Na Lubre, naturais da Corunha, trouxeram-nos o tema “Domingo Ferreiro”, extraído do álbum “Saudade”, editado em 2005. Uma música que tem por base um poema do poeta Raúl González Tuñón, dedicado ao gaiteiro Domingo Ferreiro, o qual também era conhecido por “gaiteiro do Texas”. Com nove trabalhos editados, os Luar na Lubre defendem a cultura, a tradição e a música galegas, sem fecharem portas às influências externas. O grupo é uma presença constante em muitos festivais em Espanha e na Europa, mas a sua aposta centra-se agora na América do Sul, de onde emana a música que integra o seu último álbum. Bieito Romero, Patxi Bermúdez, Xulio Varela e Xan Cerqueiro são os quatro elementos que restam da banda original, criada em 1986 e que dez anos depois saltava para a ribalta internacional com o apadrinhamento de Mike Oldfield no seu disco “Voyager”. Neste seu último trabalho, os Luar na Lubre apresentam a vocalista que os acompanha há ano e meio, a portuguesa Sara Vidal (que já tinha participado no álbum “Paraíso”), em substituição de Rosa Cedrón. Está assim consolidada a intenção do grupo em sublinhar a influência portuguesa para melhor definir a sua identidade galega, neste Portugal além-Minho. Um álbum onde resgatam velhas melodias e harmonias melancólicas. “Saudade” é uma homenagem à Galiza que chegou à América Latina e se fundiu com a cultura daquele continente, sem no entanto deixar de parte as suas raízes celtas. Divididos entre o território celta e a folk festiva, neste trabalho os Luar na Lubre resgatam poemas de García Lorca e de autores galegos da emigração, utilizando-os em temas que falam de nostalgia, do exílio e da saudade.

"Pitbull Terrier", Emir Kusturica & The No Smoking Orchestra (Bósnia Herzegovina) - gypsy technorock
Emir Kusturica e a The No Smoking Orchestra apresentam-nos um tema extraído do álbum “Unza Unza Time”, lançado em 2000. Uma música onde predominam os instrumentos típicos do folclore cigano, mas onde há também espaço para o rock acompanhado da guitarra, do baixo, da balalaica, da tuba, do saxofone, do acordeão e do violino. Nascido em Sarajevo, hoje capital da Bósnia Herzegovina, Emir Kusturica pertence a uma família bósnia muçulmana, mas de origem eslava ortodoxa. Tal como a maioria dos jugoslavos, o seu pai trocou a fé pelo comunismo. Emir, por seu lado, trocou o comunismo pelo cinema, sendo hoje mundialmente conhecido pelas suas curtas e longas-metragens. Em 1986, ele juntava-se à Zabranjeno Pusenje, uma banda polémica, fundada por Nelle Karajic, que seria censurada pelas autoridades depois de Karajic ter feito piadas sobre Tito, o então ditador jugoslavo. Os arranjos do grupo iam do folk progressivo dos Jethro Tull ao punk dos Sex Pistols, mas com a entrada de novos membros e a mudança para Belgrado, a capital da Sérvia, a banda decidiu valorizar a diversificada música dos Balcãs. Em 1994, durante o conflito no país, junta-se ao grupo o jovem Stribor, filho de Emir Kusturica. É então que a formação se fragmenta em duas: uma que mantém o nome original, e outra que adopta a designação inglesa: The No Smoking Orchestra. Além do servo-croata, a orquestra, que em palco é barulhenta, electrizante e desordeira, também usa o alemão e o inglês nas suas canções. Um género de música que Emir Kusturica classifica de “unza unza”, definição tão impronunciável quanto esclarecedora…

"Listopad", Haydamaky (Ucrânia) - carpathian ska, ukranian dub machine, hutzul punk
Os ucranianos Haydamaky, que nos apresentaram o tema “Listopad”, levam-nos pelos caminhos do ska das montanhas dos Cárpatos, do reggae, do punk hutzul e do dub machine, misturando-os com a folk ucraniana. Após o colapso da União Soviética e a independência da Ucrânia, um grupo de estudantes criava a banda Aktus, que rapidamente conquistou um lugar de destaque no underground musical de Kiev. No início do novo século, em honra à rebelião histórica do século XVIII, mudaram o nome para Haydamaky. Para além dos espectáculos que têm feito em toda a Europa de Leste, em 2004 apoiaram a revolução laranja que mobilizou a Ucrânia, tendo um dos seus temas sido muito rodado nas estações de rádio alternativas. No seu terceiro álbum “Ukraine Calling”, editado este ano e em que se dão a conhecer ao ocidente, os Haydamaky combinam raízes ucranianas com standards europeus. E como podemos confirmar neste tema, a sua música é caracterizada por energia turbulenta e por uma montanha russa de melodias.

"Kamppi",
Maria Kalaniemi & Aldargaz (Finlândia) - finnish folk, jazz, rock, pop
A melhor música do mundo vem agora da Filândia com Maria Kalaniemi e os Aldargaz, que nos trazem um tema de dança extraído do álbum “Ahma”, editado em 1999. Esta maestrina do acordeão começou a tocar aos oito anos. Aos 19, depois de gravar um álbum de temas da música tradicional filandesa, junta-se ao programa de música folk da Academia Sibelius, em Helsínquia, onde, para além do acordeão, estuda violino, bandolim, composição e arranjo. No mesmo ano, Maria Kalaniemi apoia a formação do ensemble acústico Niekku, cuja síntese entre a folk e a contemporaneidade os levou para a linha da frente da nova folk filandesa. Já em 1995 funda os Aldargaz, um sexteto de músicos da mesma academia. Adepta da improvisação, Maria Kalaniemi é também membro do colectivo internacional de acordeonistas Accordion Tribe, do grupo de música sueco-filandesa Ramunder e da orquestra de tango UNTO. O seu reportório vai da música clássica às raízes da folk de dança filandesa, passando pelo jazz, rock e pop. Neste álbum, o acordeão de Kalaniemi, instrumento que ela diz ser em simultâneo dinâmico e dinamite, junta-se à guitarra acústica, ao bandolim, ao violino, ao piano, e ainda ao trompete, ao trombone e ao saxofone.

"Amelie On Ice", Lucien N Luciano (Chile) - electronic
Lucien N Luciano fecha o programa com o tema “Amelie On Ice”, uma reinterpretação da banda sonora criada por Yann Tiersen para o filme francês “O Fabuloso Destino de Amélie Poulain”. Lucien N Luciano, cujo verdadeiro nome é Lucien Nicotet, é DJ desde 1993 e produtor desde 1997, sendo um dos pioneiros da cena musical electrónica na América Latina. Para além das actuações ao vivo em rádios e clubes de Santiago do Chile, Luciano tem também marcado presença noutros países da América do Sul, bem como na Alemanha, em Espanha e na Holanda. O músico, que está representado em cinco editoras, vive desde 2000 em Genebra, na Suiça. Nos seus trabalhos, Lucien N Luciano mistura a identidade chilena e suiça, criando uma mística junção de techno profundo e música electrónica, integrando elementos do sul nos ritmos e padrões coloridos no som. Um estilo experimental e espaçoso, cuja marca assenta no groove e no minimalismo.

Jorge Costa

sexta-feira, 2 de junho de 2006

Emissão #11 - 3 Junho 2006

A 11ª emissão do MULTIPISTAS - MÚSICAS DO MUNDO, difundida no sábado, 3 de Junho, entre as 17 e as 18 horas, na Rádio Urbana (Castelo Branco - 97.5 FM; Fundão, Covilhã e Guarda - 100.8 FM), vai de novo para o ar na segunda-feira, 5 de Junho, entre as 19 e as 20 horas.

Nesta edição estreamos a rubrica Caixa de Ritmos, numa emissão especial, feita de poucas palavras, e inteiramente dedicada aos melhores temas que passaram nas primeiras dez emissões deste programa. Eis a listagem do melhor da melhor música do mundo que passou no MULTIPISTAS - MÚSICAS DO MUNDO:

"Riena (Anathema)", Värttinä (Finlândia) - traditional finnish folk/suomirock

"Olla Meu Irmau", Luar Na Lubre (Espanha) - celtic folk

"Jota da Gheada", Berrogüetto (Espanha) - celtic music

"Gmbader", Kween Kahina (França, Argélia) - ragga-chaoui-oriental

Kelle Magni, Cheikh Lô (Senegal, Burkina-Faso) - afropop, mbalax

"Amassakoul 'N' Ténéré", Tinariwen (Mali) - touareg music

"Madan", Salif Keita (Mali) - afropop, mandingo

Lemen, Cheb Khaled (Argélia) - raï, chaâbi

"Mani", Cheba Fadela & Cheb Sahraoui (Argélia) - raï-pop

"Belibik", Souad Massi (Argélia) - argelian folk, chaâbi, raï

"Paisa", Manak-E (Reino Unido) - bhangra, punjabi music

"Bul Bul Zaman", Edil Husainov (Casaquistão) - kazakh music/folk-rock

"Su Dilluru", Mario Rivera & Tenores Di Orosei (Itália) - folktronica

(os dados sobre estes temas podem ser encontrados nos textos das emissões em que foram emitidos)

Jorge Costa

sábado, 15 de abril de 2006

Emissão #4 - 16 Abril 2006

ÚLTIMA HORA: Esta semana, devido a alterações extraordinárias na programação da Rádio Urbana (Castelo Branco - 97.5 FM; Fundão, Covilhã e Guarda - 100.8 FM), o MULTIPISTAS - MÚSICAS DO MUNDO não poderá ser emitido ao sábado. Desta feita, a quarta emissão do programa irá para o ar no domingo, 16 de Abril, no horário habitual, entre as 17 e as 18 horas, repetindo na segunda-feira, 17 de Abril, entre as 19 e as 20 horas.

Estes são os novos temas difundidos neste programa:

" Gan Ionndrainn (From E to F)",
Paul Mounsey (Escócia) - folktrónica
O escocês Paul Mounsey traz-nos um tema extraído do álbum “City of Walls”, um dos quatro trabalhos que o músico editou enquanto esteve a viver no Brasil. O nome da faixa que serve de mote ao seu último disco baseou-se no livro “Cidade de Muros: Crime, Segregação e Cidadania em São Paulo”, de Teresa Caldeira, obra onde a escritora reflecte sobre o estado da sociedade e da democracia brasileiras. Paul Mousey pega então em amostras da música tradicional escocesa, brasileira e nativa americana, combinando-as com o som da guitarra, dos teclados, da gaita de foles e das flautas, adicionando-lhes ainda uma amostra de precursão japonesa e de sonoridades electrónicas. E apesar da sua ousadia em lidar com um espectro tão vasto de sons, culturas e instrumentos, Paul Mounsey consegue criar um universo musical único e impressionante.

"I Won't Forget My Roots Manensa Asli (Miwawa)", Souad Massi (Argélia) e Daby Touré (Mauritânia) - argelian folk, chaâbi, raï
Considerada a Tracy Chapman do Magreb, Souad Massi cruza os tormentos da música argelina com os prazeres melódicos do Ocidente. Neste tema, extraído do álbum “Mesk Elil”, editado no ano passado, a jovem surge lado a lado com Daby Touré, músico natural da Mauritânia. Na sua infância, Daby Touré divertia-se com os amigos a tocar caixas metálicas ou velhos bidões, altura em que aprenderá a tocar guitarra às escondidas do pai e se deixa impregnar pelas culturas Soninke, Toucouleur e Wolof. Em 1989, os dois mudam-se para França, onde os irmãos de Daby o convidam a juntar-se aos Touré Kunda, grupo liderado pelo pai. Desmarcando-se da música dançável do clã familiar, que mistura o jazz e as influências africanas, Daby Touré envereda por outros caminhos. O músico volta-se agora para as melodias puras e sonoridades novas, cantando em soniké, wolof ou pular. Uma forma de retratar a vida do seu povo e do mundo.

Lemen,
Cheb Khaled (Argélia) - raï, chaâbi
Cheb Khaled traz-nos o tema “Lemen”, extraído do seu sétimo e último álbum “Ya Rayi”. Neste trabalho, totalmente em árabe e o primeiro no espaço de quatro anos, Khaled surge com uma orquestração bem ao estilo pop de sucessos anteriores como “Didi”, repetindo o universo festivo e combinando as raízes do raï com o chaâbi, o folclore argelino de cariz mais político e social. O álbum apresenta ainda uma mistura de grooves à americana com ritmos orientais, juntando outros ambientes sonoros como a música árabe-andaluza, o jazz, a bossa nova e o zouk.

Kelle Magni,
Cheikh Lô (Senegal, Burkina-Faso) - afropop, mbalax
O tema foi extraído do álbum “Lamp Fall”, editado em 2005. Cheikh Lô vive em Dakar, a capital do Senegal, mas cresceu no Burkina-Faso. A sua música constrói-se a partir da pop característica daquela cidade e dos ritmos mbalax, bem ao estilo do conhecido senegalês Youssou N'Dour, com quem gravou o primeiro álbum em 1995. Cheik Lô foi membro da Orchestre Volta Jazz, a qual tocava sucessos cubanos e congoleses bem como versões pop de músicas tradicionais do Burkina Faso. Em 1978 mudava-se para o Senegal, onde começa por tocar com várias bandas. A música acústica e eléctrica de Cheik Lô, que fez dele uma estrela no Senegal e na Europa, explora ainda elementos de salsa, rumba congolesa, folk e jazz, bem como impulsos de reggae, soukous e um sabor a Brasil.

"Rodopiou",
Nazaré Pereira (Brasil) - carimbó, forró, capoeira, maracatu
Nazaré Pereira, que nos trouxe um tema extraído do álbum “Brasil Forró”, editado em 2001, canta os sons do norte e nordeste brasileiro, levando-nos pelos caminhos do forró, carimbo, xaxado, xote, arrasta-pé, frevo, coco, maracatu ou da capoeira. Nesta região, as músicas destacam-se pela sua simplicidade e pela influência de tradições portuguesas e de lendas indígenas locais misturadas com precursões africanas. Os temas da cantora e actriz, que canta também músicas de grandes autores do nordeste brasileiro, descrevem a floresta, a vida e as lendas do Xapuri do Amazonas, sua aldeia natal.

"Night Of The Living Mambo",
Mamborama, (Cuba, EUA) - mambo
Os Mamborama, que nos trouxeram o tema “Night Of The Living Mambo”, extraído do álbum do mesmo nome, são um grupo de músicos norte-americanos e cubanos que mistura ritmos modernos cubanos com jazz e influências do rithm & blues. Liderados pelo pianista Bill Wolfer, a sua música baseia-se no son cubano e na descargas, aproximando-se de estilos como o songo e a timba. Aperfeiçoado pelas bandas de dança, o mambo remonta às raízes religiosas afro-cubanas, sendo o nome originário de cultos religiosos congoleses. A palavra provém do dialecto cubano Nañigo, aparecendo na frase “Abrecuto y guiri mambo” (o que quer dizer "Abre os teus olhos e escuta"), usada na abertura dos concursos musicais em Cuba. Altamente influenciado pelas big bands, jazz e dance halls nova-iorquinos, o universo dançante do mambo tem geralmente por protagonistas um conjunto cubano, incluindo um ensemble de voz, trompete e secções de ritmo, as quais se incluem um baixo, uma conga e um pequeno tambor.

Lubenica,
Emir Kusturica & The No Smoking Orchestra (Bósnia Herzegovina) - gypsy technorock
Emir Kusturica e a The No Smoking Orchestra apresentaram-nos um tema extraído do álbum “Unza Unza Time”. Nascido em Sarajevo, hoje capital da Bósnia Herzegovina, Emir Kusturica pertence a uma família bósnia muçulmana, mas de origem eslava ortodoxa. Tal como a maioria dos jugoslavos, o seu pai trocou a fé pelo comunismo. Emir, por seu lado, trocou o comunismo pelo cinema, sendo hoje mundialmente conhecido pelas curtas e longas-metragens que realizou. Em 1986, Emir Kusturica junta-se à Zabranjeno Pusenje, uma banda polémica e censurada pelas autoridades jugoslavas. Em 1994, durante o conflito no país, junta-se ao grupo o jovem Stribor, filho de Emir Kusturica. É então que o grupo se fragmenta em dois: um que mantém o nome original, e outro que adopta a designação inglesa: The No Smoking Orchestra.

Dona Tresa,
Galandum Galundaina (Portugal) - celtic folk
Os mirandeses Galandum Galundaina, que estão a celebrar o seu décimo aniversário, têm apostado na recolha e divulgação do património musical, das danças e da língua das terras de Miranda, em Trás-os-Montes. Os elementos do grupo, que nasceram nesta zona, trazem-nos melodias tradicionais, enriquecidas com timbres, ritmos e harmonias de instrumentos como a gaita-de-foles mirandesa, a flauta pastoril, a sanfona, a caixa de guerra, as conchas de Santiago ou as castanholas. Os Galandum Galundaina, que já colaboraram com músicos como o espanhol Paco Díez ou o gaiteiro escocês Malcom MacMillan, trouxeram-nos um tema extraído do álbum “Modas I Anzonas”, uma música que refere as modas vindas do continente americano para onde muitos transmontanos partiram no início do século XX em busca de uma vida melhor. Nesta faixa surgem em uníssono a gaita mirandesa e a gaita escocesa.


Uah Lúa (Folla Do Visgo), Luar Na Lubre (Espanha) - celtic folk
Os galegos Luar Na Lubre, naturais da Corunha, trazem-nos um tema extraído do seu penúltimo álbum “Hai Un Paraíso”, editado em 2004. Este grupo de música celta, com vinte anos de carreira e nove trabalhos editados, mudou por completo o panorama da música tradicional da Galiza. Isto porque defendem com unhas e dentes a cultura, tradição e música galegas, sem no entanto deixarem de assumir e integrar no seu processo criativo as influências externas, enquadradas pela fraternidade inter-céltica. Os Luar Na Lubre são uma presença constante em muitos festivais em Espanha e na Europa, dando a conhecer uma música que não pretende ser eterna, antes contemporânea.


Es Yamal, Yamal (Espanha) - hip-hop, ethnic
Com o tema extraído do seu primeiro álbum “Y El Cielo Por Encontrar”, editado em 2003, o poeta urbano Yamal traz-nos rimas frescas, sinceras e pessoais, que falam de amor, da família e do meio social. Estas surgem envoltas no universo lírico do hip-hop da capital espanhola, meio que o MC e produtor conheceu aos 12 anos, mas integram algumas surpresas como sons mediterrânicos, árabes e jamaicanos. Um ajuste perfeito entre as palavras e a música, a qual convida a dançar e ao mesmo tempo revela melancolia e tristeza, algo muito próprio das influências de Yamal.

Jorge Costa