quinta-feira, 20 de março de 2008

Emissão #61 - 22 Março 2008 - 2ºaniversário

A 61ª emissão do MULTIPISTAS - MÚSICAS DO MUNDO, difundida no sábado, 22 de Março, entre as 17 e as 18 horas, na Rádio Urbana (Castelo Branco - 97.5 FM; Fundão, Covilhã e Guarda - 100.8 FM), vai de novo para o ar na quarta-feira, 26 de Março, entre as 21 e as 22 horas, sendo reposta três semanas depois (12 e 16 de Abril) nos horários atrás indicados.

No
segundo aniversário do programa, que desde Março de 2006 tem procurado divulgar alguma da melhor música étnica produzida em todo o globo, sobretudo a que se funde com géneros mais actuais e urbanos, destaca-se a rubrica Caixa de Ritmos, uma emissão especial, feita de poucas palavras, e inteiramente dedicada aos melhores temas que passaram nas últimas dez edições do MULTIPISTAS - MÚSICAS DO MUNDO:

"Höyhensarjan Maailmamestari", Tuomari Nurmio & Alamaailman Vasarat (Finlândia) - progressive folk, punk, rock

"Kabir Kouba",
Claire Pelletier (Canadá) - celtic music

"Boy In The Boat ",
Lúnasa (Irlanda) - celtic

"Manta", Saba (Somália) - afropop

"Gimme Shelter", Angélique Kidjo (Benim) - afropop, afrobeat

"Desde Cuba Hasta Afghanistan", Bakú (Porto Rico) - salsa, flamenco, pop, rock

"Mirant Les Notícies", Cheb Balowski (Espanha) - pachanga, raï, gnawa, rock

"Bulgarian Chicks", Balkan Beat Box (Israel) - gypsy-punk, contemporary folk

"Munt", Boom Pam (Israel) - world fusion, surf rock

"Nadie Te Tira", Ozomatli (EUA) - salsa, cumbia, latin rock

(os dados sobre estes temas podem ser encontrados nos textos das emissões em que foram emitidos)

Jorge Costa

quinta-feira, 6 de março de 2008

Emissão #60 - 8 Março 2008

A 60ª emissão do MULTIPISTAS - MÚSICAS DO MUNDO, difundida no sábado, 8 de Março, entre as 17 e as 18 horas, na Rádio Urbana (Castelo Branco - 97.5 FM; Fundão, Covilhã e Guarda - 100.8 FM), vai de novo para o ar na quarta-feira, 12 de Março, entre as 21 e as 22 horas, sendo reposta três semanas depois (29 de Março e 2 de Abril) nos horários atrás indicados.

"Kudumba", Armenian Navy Band (Arménia) - avant-guarde folk
A Armenian Navy Band inaugura a emissão com “Kudumba”, tema que faz parte do seu segundo álbum “New Apricot”. Trabalho gravado em Istambul e editado em 2001, reflexo da primeira digressão europeia do grupo, realizada um ano antes. À primeira vista, Armenian Navy Band pode parecer um nome absurdo para a banda criada em 1998 em Yerevan, capital de um país sem acesso directo ao mar. No entanto, o seu fundador, o percussionista e vocalista de ascendência arménia Arto Tunçboyaciyan, acredita ser possível mover todo este barco sonoro do Cáusaco, mesmo sem água. Juntam-se-lhe neste projecto onze jovens que se fazem acompanhar desde os tradicionais sazabo, duduk (aerofone tradicional da Arménia), zurna (aerofone da Anatólia com palheta dupla), kamancheh (espécie de violino persa), kanun (semelhante à cítara, mas de formato trapezoidal), blul, suduk, a instrumentos mais actuais como o trombone, o saxofone, o trompete, o baixo, a bateria, os teclados e o piano. A orquestra cruza então a melancolia da música tradicional da Arménia e Anatólia (parte asiática da Turquia) com o lamento e a solidão do jazz e dos blues, havendo ainda espaço para o rock e para a pop. Composições próprias numa folk avant-garde, síntese das vivências multiculturais de alguém que através da música procura comunicar os valores do amor, do respeito e da verdade. Arto Tunçboyaciyan cresceu na Turquia e emigrou para os Estados Unidos da América, onde hoje vive. Ao longo dos anos, tem vindo a colaborar com referências do jazz e da world music como Eleftheria Arvanitaki, Gerardo Nuñez, Joe Zawinul, Al Di Meola, Chet Baker, Oregon, Joe Lovano, Wayne Shorter, Don Cherry, Arthur Blythe ou Omar Faruk Tekbliek.

"A Day Like Today", Emily Smith (Reino Unido) - folk, celtic music
As músicas do mundo prosseguem com a escocesa Emily Smith e "A Day Like Today", tema retirado do álbum do mesmo nome, seu trabalho de estreia, lançado em 2002, e em que participam ainda Jamie McClennan, Ross Ainslie e Sean O'Donnell. Um conjunto de canções e melodias tradicionais, cantados de forma natural e com grande emoção por Emily Smith, a que se juntam novos arranjos e composições originais que soam como se tivessem sobre si o pesado fardo dos anos. Formada na Real Academia Escocesa de Música e Drama, a cantautora é não só uma reconhecida intérprete de canções tradicionais, mas também uma talentosa compositora e instrumentista. Criada na rural Dumfriesshire, no sudoeste da Escócia, Emily Smith herdou a paixão pela história local e o forte sentimento de pertença à sua comunidade. Impressões patentes no entusiasmo com que a jovem pianista e acordeonista - hoje acompanhada em palco pelo violinista Jamie McClennan, pelo guitarrista Ross Milligan e pelo baixista Duncan Lyall - tenta retratar a beleza e diversidade da região onde nasceu. Uma energia vocal que atravessa o tempo e que consegue captar a força das letras do folclore nacional, assimilando desde as baladas de Dumfriesshire aos versos líricos de Robert Burns, o poeta nacional da Escócia.

"The Trucks of Bohermore", Reeltime (Irlanda) - celtic music, irish folk
Os Reeltime apresentam-se pela primeira vez no programa com o medley “The Trucks of Bohermore” (The Bucks Of Oranmore/Gan Ainm/Over The Moor To Maggie), conjunto de reels retirado do seu segundo álbum “Live It Up”, gravado em Edimburgo e editado em 1998. Dos arranjos de antigos jigs e reels, principais ritmos das danças celtas, às incursões por uma panóplia de géneros mais actuais, o jovem ensemble acrescenta uma sensibilidade moderna à música tradicional irlandesa. Viagem sonora multicultural que se constrói a partir de aproximações pontuais à música country de Nashville, ao swing do Texas, à musette francesa, à música cigana da Bulgária, ao americano ragtime ou ao jazz ao estilo do belga Django Reinhardt. O resultado desta mistura global é uma série de melodias carregadas de energia e ritmo, festa onde, para além do violino, do bodhrán e da flauta irlandesa, há lugar também para a guitarra, o ukelele, a harmónica, o acordeão, o baixo, o piano, os teclados e as percussões. Formados pelos irmãos Máirí, Yvonne, Gerard e Terry Fahy, quatro jovens membros de uma família de célebres músicos e dançarinos, os Reeltime são acompanhados em palco por Chris Kelly, o marido de Máirín, e por Benny Hayes. De entre as colaborações com o grupo destacam-se nomes como Eilis Egan, Luke Daniels, John Flatley, Jimmy Higgins, Brendan Power, James Blennerhasset, Georgi Petrov, Declan Masterson, Fran Breen, James Brennan, Barry Conboy, Tommy Hayes, Arty McGlynn ou Kathy Prince.

"Hanfarkaan", Saba (Somália) - afropop
A jornada continua com Saba e o tema “Hanfarkaan” (em somali, hanfar significa "vento", que aqui serve de elo de ligação ao espírito), extraído do álbum “Jidka” (A Linha), lançado em 2007. Título que referencia o lado mestiço da cantora, a qual cruza a cultura africana com a europeia. Nascida em Mogadíscio, capital da Somália, durante o regime repressivo do general Muhammad Siyad Barre, Saba é filha de pai italiano e de mãe etíope. Com os italianos permanentemente sob suspeita e o conflito com a Etiópia na região de Ogaden, a família foi então obrigada a exilar-se em Itália. Neste seu trabalho de estreia, a cantora mistura então guitarras acústicas, koras e djembés com batidas tradicionais africanas e percussão contemporânea, recordando canções de infância e temas compostos com a própria mãe (recorde-se que ela começou por cantar e dançar com a irmã para entreter os vizinhos, em Addis Abeba). A jovem Saba, que tem trabalhado com autores somalianos como Cristina Ubax Alì Farah e Igiaba Scego, serve-se do dialecto somali de Xamar Weuyne, onde abundam as palavras em inglês e italiano, herança dos tempos coloniais. Nesta aproximação entre culturas, ela conta com as participações do guitarrista e percussionista camaronês Tatè Nsongan, do griot senegalês Lao Kouyatè e da voz de Felix Moungara, do Gabão.

"No Habla Na'", Colombiafrica - The Mystic Orchestra (Colômbia, Congo, Nigéria, Bolívia) - champeta, afrobeat, soukous, highlife
A Colombiafrica The Mystic Orchestra regressa ao programa com "No Habla Na’", parte integrante do disco “Voodoo Love Inna Champeta Land”, editado em 2007. Depois de séculos de colonização, Colômbia e África juntam-se finalmente através da champeta criolla, o primeiro género afro-colombiano contemporâneo. São versões locais de ritmos africanos como o soukous congolês, o highlife ganês, a afro-beat nigeriana ou o sul-africano mbaqanga, que se misturam com a cumbia, o bullerengue, a chalupa, o lumbalú (canção funerária) e outros estilos caribenhos, num diálogo permanente entre as percussões, as guitarras e as vozes. Neste trabalho, as estrelas da champeta Viviano Torres, Luís Towers e Justo Valdez, originários da cidade de San Basilio de Palenque, juntamente com o produtor Lucas Silva (“Champeta-Man Original”), devolvem a África os ritmos afro-colombianos. Uma jornada em que contam com talentos oriundos do Congo, Guiné, Angola e Camarões, tais como Dally Kimoko, Diblo Dibala, Nyboma, Sékou Diabaté, Rigo Star, Bopol Mansiamina, Caien Madoka, Ocean, 3615 Code Niawu, Hadya Kouyate, Son Palenque, Las Alegres Ambulancias, Batata e Guy Bilong.

"Kielo", Kimmo Pohjonen (Finlândia) - folk-rock, electronic folk
Segue-se Kimmo Pohjonen com “Kalmukki”, tema extraído do álbum “Kielo”, lançado em 1999. Uma série de peças a solo, ora acústicas, ora manipuladas, que estabeleceram um novo parâmetro para a nova avant garde. Com uma carreira repartida entre a folk, a música clássica e o rock, o músico e compositor Kimmo Pohjonen mistura de forma única o acordeão com amostras de sons e percussões, levando-o para universos como a dança contemporânea ou o teatro musical. Pohjonen, que nasceu na aldeia de Viiala, começou a tocar acordeão aos oito anos. Na Academia Sibelius, em Helsínquia, absorveu a folk e misturou-a com outros estilos. Para expandir a sonoridade do fole diatónico, Kimmo adicionou ao acordeão cromático composições originais que integravam samples e loops do islandês Samuli Kosminen, com quem viria a formar o duo Kluster. Mais tarde, juntaram-se-lhes Pat Mastrelotto e Trey Jun, dando lugar ao quarteto Kluster TU. Entretanto, Pohjonen tem vindo a colaborar com músicos finlandeses como Heikki Leitinen, Maria Kalaniemi, Alanko Saatio ou Arto Järvellä, integrando ainda os grupos de new folk Pinnin Pojat e Ottopasuuna. Apesar dos mais de 13 quilos do acordeão, em palco Pohjonen movimenta-se energicamente, extraindo camadas de som a que adiciona a própria voz. Mais voltado para o formato acústico, Kimmo Pohjonen mantém como base as raízes e os cantos populares da Finlândia, tocando outros tipos de acordeão, a harmónica e a marimba. Tradição e improviso unem-se assim na busca de novos sons através da música experimental e electrónica.

"Maahinen Neito", Värttinä (Finlândia) - traditional finnish folk/suomirock
A mais conhecida banda da folk contemporânea finlandesa traz-nos “Maahinen Neito” (A Rapariga da Terra), tema retirado do álbum “Iki” (termo que a banda define como sendo “o sopro principal e eterno”), editado em 2003, no vigésimo aniversário do grupo. Um trabalho que marca o seu regresso às grandes melodias, numa mistura de pop e rock ocidental com a folk europeia e nórdica. As Värttinä são conhecidas por terem inventado uma visão contemporânea da tradição vocal feminina e da poesia popular da Carélia – uma região isolada na fronteira entre a Finlândia e a Rússia – reforçando as letras emocionais com ritmos em fino-úgrico, idioma antecessor do finlandês. O grupo nasceu em Raakkylaa, uma pequena cidade na Carélia filandesa. Entusiasmados pelas mães, alguns miúdos juntaram-se para cantar músicas folk e tocar kantele (uma versão filandesa do zither, instrumento da família da cítara). À medida que foram crescendo, muitos deixaram o grupo, mas quatro raparigas criaram uma nova formação, que continuou a fazer arranjos tradicionais mas passou também a compor temas próprios. Actualmente fazem parte das Värttinä Mari Kaasine, Johanna Virtanen e Susan Aho, vozes enérgicas e harmónicas que são suportadas por seis músicos acústicos que aliam a instrumentação tradicional e contemporânea (feita à base da guitarra, violino, acordeão, baixo e percussões) aos ritmos complexos e arranjos modernos.

"Era D'Aqui I D'Allà", Xazzar (Espanha) - gypsy klezmer jazz, folk rock
A emissão chega ao fim com os Xazzar, que desta feita nos trazem o tema “¿Qué Hay de Malo en Resbalar?” (Que Mal Tem Escorregar?), retirado do álbum “Que No S’Escapin Els Gossos” (Que Não Fujam os Cães), editado em 2007. O projecto arrancou dois anos antes, quando alguns estudantes da Escola de Música da Catalunha decidiram criar um grupo que tocasse temas originais, inspirados na música klezmer. No seu disco de estreia, o jovem septeto, formado por Angela Llinarés (clarinete), Ildefons Alonso (bateria), Toni Vilaprinyó (baixo), Clara Peya (piano e acordeão), Noemi Rubio (violino), Miranda Gás (voz) e Laia Serra (violino), mistura melodias inspiradas na folk com ritmos variados que vão do jazz ao swing, passando pelo charleston e pela chanson française, sem esquecer os sons endiabrados da música cigana. São composições próprias, cantadas em catalão, castelhano e francês, que apelam ao baile e à festa. Muito ritmo a marcar passo num trabalho onde os Xazzar contam com as colaborações de músicos como Helena Cases de Conxita (pandeireta), Jordi Cristau (coros) ou Francesc Vives de Dumbala Canalla (trompete).

Jorge Costa

sábado, 1 de março de 2008

World Music Charts Europe - Março 2008

Eis o TOP 20 relativo ao mês de Março dos 173 discos nomeados para a tabela europeia de música do mundo (a lista pode ser consultada em http://www.wmce.de). A assinalar, para além da subida vertiginosa de Dulce Pontes, as nove novas entradas no topo do painel (cinco em estreia absoluta no WMCE e quatro a subirem para os primeiros vinte lugares):

1º- DIASPORA HI-FI, Watcha Clan (França) - Piranha
mês passado: 3ºlugar

2º- FRAGILE BEAUTY, Huong Thanh (Vietname, França) - ACT
mês passado: 98ºlugar
3º- WAMATO, Les Amazones de Guinee (Guiné) - Sterns
mês passado: 2ºlugar
4º- THE MANDE VARIATIONS, Toumani Diabaté (Mali) - World Circuit
estreia na tabela

5º- GRANDE FINALE, Magnifico (Eslovénia) - Arih
mês passado: 18ºlugar
6º- 1 REAL, DJ Dolores (Brasil) - Ziriguiboom
estreia na tabela

7º- KOBZAR, Haydamaky (Ucrânia) - EastBlok
estreia na tabela
8º- ELS AMANTS DE LILITH, Lídia Pujol (Espanha) - Temps
mês passado: 9ºlugar
9º- THE SOUL OF ARMENIA, Djivan Gasparyan (Arménia) - Network Medien
mês passado: 1ºlugar
10º- TAKSIM TRIO, Taksim Trio (Turquia) - Doublemoon Records
mês passado: 4ºlugar
11º- D'ICI ET D'AILLEURS, Soha (França, Argélia) - Virgin EMI
mês passado: 16ºlugar
12º- SOUL SCIENCE, Justin Adams & Juldeh Camara (Reino Unido, Gâmbia) - Wayward
mês passado: 10ºlugar
13º- NEW DAWN, Neco Novellas (Moçambique) - World Connection
estreia na tabela
14º- 800, Mercan Dede (Turquia, Canadá) - Doublemoon
mês passado: 36ºlugar
15º- RAISING SAND, Robert Plant & Alison Krauss (Reiuno Unido, EUA) - Rounder
mês passado: 14ºlugar
16º- AKAPELLEANDO, Vocal Sampling (Cuba) - Skip Records
mês passado: 119ºlugar
17º- DEVOTION, Cheb i Sabbah (EUA, Índia) - Six Degrees
estreia na tabela
18º- EL CORAZÓN TIENE TRES PUERTAS, Dulce Pontes (Portugal) - Resistencia
mês passado: 173ºlugar
19º- BALANÇO, Deodato Siquir (Moçambique, Dinamarca) - NCB
mês passado: 15ºlugar
20º- TUMI SESSIONS, Chucho Valdez (Cuba) - Tumi
mês passado: 173ºlugar

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

Mari Boine: a voz mística da Lapónia

A embaixadora cultural dos sami recupera as entoações xamânicas do canto yoik, cruzando-o com ritmos de todo o mundo


Os sons xamânicos embalados pela voz melódica da cantora
(imagens:
Jorge Costa/Multipistas)

Ela é uma das mais conhecidas
artistas nórdicas em todo o mundo. Cantora mas também activista, a embaixadora cultural dos sami
tem vindo a lutar pelo reconhecimento dos direitos do povo autóctone da Lapónia, no norte da Escandinávia, bem como pela preservação da identidade do seus conterrâneos. Um dos maiores grupos indígenas europeus, com cerca de 70 mil indivíduos, empurrados ao longo de séculos para o tecto da Noruega, Suécia, Finlândia e Rússia.

“Recuperar a música desta cultura é também algo político, mesmo ainda hoje. No início, as minhas canções falavam muito sobre essa situação”, refere ao MULTIPISTAS - MÚSICAS DO MUNDO a norueguesa Mari Boine, que a 15 de Fevereiro esteve no grande auditório do Teatro Municipal da Guarda, acompanhada por quatro músicos: o guitarrista Georg Buljo, o trompetista
Ole Jørn, o baterista Gunnar A
e o baixista Svein Scultz. “Na minha música quero trazer para fora a batida xamânica, os valores esquecidos da minha cultura e de outras culturas indígenas. Eu absorvo tudo o que está na natureza e no ambiente. Então, isso mistura-se tudo dentro de mim e sai na forma de música”.


Mari Boine falando sobre três décadas de carreira musical

A cantar desde 1980, Mari Boine descreve a dor de um povo até há pouco tempo proibido de falar na sua língua e de se expressar através do joik. Durante muito tempo, o canto mais característico dos sami foi visto pelos laestadianistas, os luteranos mais conservadores, como a música do diabo. Género minimalista que, ironicamente, é profundo e espiritual por natureza, mas que por vezes não resiste à tentação de se fazer acompanhar por um tambor ou outros instrumentos.

“Eu cresci numa comunidade muito restrita, onde a minha família e a maioria das pessoas decidiram seguir as regras da Igreja, dos padres e dos missionários. Eles não ensinaram aos filhos a sua música tradicional ou muitas das histórias porque isso era visto como pecaminoso e uma coisa do diabo”, explica a cantora. “Quando comecei a fazer esta música, os meus pais não aprovaram, e nunca chegaram a ir aos meus concertos. Muitas das pessoas mais velhas pensaram que ao ter começado a usar a bateria também era pecaminoso, mas agora que já faço isto há 28 anos, acho que essas vozes de quem estava contra já não são tão fortes. Os mais jovens estão mais abertos a estas coisas”.


A instrumentação moderna alia-se aos sons da Lapónia

Embaixadora cultural dos
sami, mas também cidadã do mundo, Mari Boine junta a música tradicional do seu povo com a riqueza rítmica e harmónica de outras culturas ancestrais. Um encontro que passa pelo cruzamento dos sons étnicos de África ou da América do Sul com influências mais actuais como o jazz, o rock, a pop ou mesmo a música electrónica. Peregrinações sonoras a que se juntam instrumentos como o violino árabe, o charango peruano, as flautas andinas ou as percussões africanas.

“Desde sempre que tenho vindo a misturar a música sami com ritmos de todo o mundo porque penso que sou uma pessoa universal”, confessa Mari Boine. “Sou sempre muito curiosa a todos os tipos de influência. Gosto muito da música africana, mas também dos ritmos de leste. E sempre gostei de música árabe”, acrescenta a cantora. “Quando eu era pequena, costumava ouvir rádio e andava sempre à procura de música, e cada vez que ouvia música árabe, não sei porquê, sentia que era algo que eu conhecia bem”.

Percussão e ritmo associam-se ao canto tradicional sami

Com quase trinta anos de carreira e mais de uma dezena de álbuns, Mari Boine tem vindo a colaborar com artistas internacionais como Peter Gabriel ou Jan Garbarek. Da veia xamânica do joik, assente numa escala pentatónica, a cantora norueguesa herdou o ritmo e as entoações do tempo em que o homem estava mais próximo da natureza.

“A batida xamânica está muito próxima do ritmo do coração”, diz Mari Boine. “Também há música maravilhosa na música ocidental, mas muita dela é demasiado artificial e superficial. No entanto, penso que muita da música antiga e das canções tradicionais de todo o mundo têm muito do coração e alma”, conclui a artista, fazendo ainda uma ponte com Portugal. “Por vezes ouvimos o fado turístico, mas o fado verdadeiro é que tem a alma”.

Espírito partilhado também com a sonora saudade portuguesa. São canções simples, erguidas pela voz mística de Mari Boine, um espelho da alma que se liga ao corpo através da música.

Mari Boine, acompanhada em palco pelos quatro músicos


Discografia:
1985 - “Jaskatvuođa Maŋŋá” - Etter Stillheten
1989 -
“Gula Gula” - Hør Stammødrenes Stemme/Hear The Voice of The Tribe's Mothers
1991 -
“Salmer På Veien Hjem”, com Ole Paus e Kari Bremnes
1992 - “Møte I Moskva”, com os Allians
1993 -
“Goaskinviellja” - Ørnebror/Eagle Brother
1994 -
“Leahkastin” - Unfolding
1996 -
“Radiant Warmth”, com Goaskinviellja e Leahkastin
-
“Eallin”, ao vivo
1998 -
“Bálvvoslatnja” - Room of Worship
2001 -
“Oa Hámis”, remisturado
2002 -
“Gávcci Jahkejuogu” - Eigth Seasons
2006 -
“Idjagieđas” - In the Hand of the Night

Jorge Costa

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

Emissão #59 - 23 Fevereiro 2008

A 59ª emissão do MULTIPISTAS - MÚSICAS DO MUNDO, difundida no sábado, 23 de Fevereiro, entre as 17 e as 18 horas, na Rádio Urbana (Castelo Branco - 97.5 FM; Fundão, Covilhã e Guarda - 100.8 FM), vai de novo para o ar na quarta-feira, 27 de Fevereiro, entre as 21 e as 22 horas, sendo reposta três semanas depois (15 e 19 de Março) nos horários atrás indicados.

Um programa especial onde se destaca a entrevista exclusiva a Mari Boine, realizada a 15 de Fevereiro no Teatro Municipal da Guarda, a propósito do regresso a Portugal da cantora norueguesa.


"Höyhensarjan Maailmamestari", Tuomari Nurmio & Alamaailman Vasarat (Finlândia) - progressive folk, punk, rock
Tuomari Nurmio e os Alamaailman Vasarat inauguram a emissão com “Höyhensarjan Maailmamestari”, tema do álbum conjunto “Kinaporin Kalifaatti”, editado em 2005. Tuomari Nurmio, nome artístico de Hannu Juhani Nurmio, nasceu em Helsínquia e é um dos mais originais cantautores finlandeses. Da música country e dos blues, às reminescências de Tom Waits, são impressões ora românticas, ora humorísticas, que Tuomari (“juíz”, em finlandês, alcunha adoptada desde que este se formou em Direito) combina com expressões peculiares, metáforas e vernáculo quanto baste. Depois do duo de guitarra e bateria com Markku Hillilä, surge agora a colaboração com os Alamaailman Vasarat (Martelos do Submundo) numa mistura que combina melodia, harmonia e ritmo. Criados em 1997 também em Helsínquia por dois membros do grupo de rock progressivo Höyry-Kone - o percussionista Teemu Hänninen e o guitarrista Jarno Sarkula, que então comprou um saxofone soprano -, os Vasarat são um projecto acústico cheio de humor e energia. A banda – a que se juntam Miikka Huttunen, Marko Manninen, Tuukka Helminen e Erno Haukkala - apresenta-se como uma combinação de world music ficcional oriunda do seu próprio continente imaginário, a Vasaraasia, com elementos de heavy metal, jazz e música klezmer. Uma folk progressiva situada algures entre o chamber rock, o ethnic brass punk e o kosher-kebab jazz. São climas sombrios e texturas densas numa original mistura de timbres baseada em instrumentos de sopro (trombone, clarinete e saxofone soprano), no violoncelo, no piano e no órgão, mas também em instrumentos como o didgeridoo e o shenhai (espécie de oboé indiano). Ritmos acelerados e frenéticos a provarem que no rock não são necessárias guitarras eléctricas.

"Kounoun", Kaouding Cissoko (Senegal) - kora music, mandingo
O senegalês Kaouding Cissoko regressa ao programa com "Kounoun", tema extraído do seu único disco a solo, editado em 1999. Em “Kora Revolution”, trabalho lírico e introspectivo produzido pelo baixista Ira Coleman, o virtuoso da kora (espécie de harpa de 23 cordas da África Ocidental, cuja caixa de ressonância é uma cabaça) mistura este instrumento e a tradição mandingo com a sofisticada pop senegalesa dos Daande Lenol (banda do conhecido Baaba Maal, a que se juntou em 1991) e outros géneros africanos. Uma sonoridade que havia já sido cruzada com o flamenco por Toumani Diabaté, com o jazz pelo Kora Jazz Trio, ou ainda com o rock por Ba Cissoko. O resultado é uma folk onde se destacam as harmonias vocais femininas e uma secção rítmica complexa construída a partir das sonoridades do djembé, da tama (tocado com um pau, o “tambor falante” deve o nome ao seu timbre variável), do sabar (tambor tradicional senegalês), do balafon (instrumento sul-africano, percussor do xilofone, cuja ressonância se deve a um conjunto de cabaças), da guitarra, da flauta ou do baixo. Falecido em 2003, vítima de tuberculose, Kaouding Cissoko, fazia parte de uma grande família de tocadores de kora. Por diversas vezes que tocou com os Afro-Celt Sound System ou com músicos como Salif Keita, Nusrat Fateh Ali Khan, Michael Brook, Mansour Seck ou Ernest Ranglim - estes dois últimos convidados especiais neste trabalho familiar onde participaram ainda o pai de Cissoko, as suas sobrinhas Mamy e Sokhna e a irmã Binta.

"Pimpin' For The Muse", Tuatara (EUA) - funk, jazz, rock, lounge
Os Tuatara trazem-nos “Pimpin' For The Muse”, tema extraído do seu terceiro álbum “Cinematique”, editado em 2001. Um trabalho instrumental com contornos cinematográficos, onde são reunidas várias jam sessions em que a banda, aqui alargada aos onze elementos, utiliza instrumentos exóticos como o didgeridoo, os tambores de aço, as percussões africanas, o bandolim e o alaúde. Sons étnicos que rapidamente ganham ritmo e percussão, e que resultam da mistura de referências que vão da música asiática ou libanesa à folk ocidental, com o rock, o bebop, o jazz, o funk ou o lounge. Entretanto, os Tuatara têm vindo a cruzar a instrumentação exótica com as misturas electrónicas de vários DJ's. Este colectivo de compositores norte-americanos, criado em 1997 em Seattle, começou por ser um projecto de amigos com vista à composição de bandas-sonoras para cinema e televisão, mas rapidamente deu lugar a um novo grupo. Pela formação, de que hoje fazem parte Peter Buck e Scott McCaughey, Joe Cripps, Craig Flory, Barrett Martin e Elizabeth Pupo-Walker, passaram ao longo dos anos elementos dos R.E.M., The Minus 5, Critters Buggin, Screaming Trees, Luna ou Los Lobos. A título de curiosidade, registe-se que a tuatara - nome que em maori significa "dorso espinhoso" - é um réptil da Nova Zelândia, praticamente extinto, e que pouco mudou nos últimos 220 milhões de anos.

"Sukkar", Wafir (Sudão) - afropop, soukous, sephardic
A viagem continua com Wafir e “Sukkar” (Açúcar), tema retirado do álbum “Nilo Azul”, rio a que o multinstrumentista dedica o seu primeiro disco a solo, lançado em 2002. Um tributo aos seus conterrâneos sudaneses, em particular à voz açucarada e aos sorrisos de mel deste povo, onde colaboram Mariem Hassan, Nayim Alal, Iain Ballamy, Josete Ordoñez, Pedro Esparza, Vicente Molino, Ivo e Nasco Hristov, Sebatián Rubio, Salah Sabbagh, entre outros músicos. Wafir S. Gibril explora então a tradição oral do seu país numa viagem pelo longo braço de água em que se condensam séculos de civilização. Improvisos e ritmos complexos árabes, à mistura com harmonias de jazz e melodias celtas, flamencas e búlgaras, os quais têm por base instrumentos como os bongos sudaneses (possuem três tambores em vez de dois), o saz (alaúde mediterrânico), o rabab (cordofone de arco afegão), a viola, o bendir, o pandeiro ou as krakebs (espécie de grandes castanholas metálicas, base rítmica do gnawa). O virtuoso do violino ou do oud (alaúde árabe), que hoje vive em Madrid, começou por tocar acordeão nos Abdul Aziz Almubarak, Mohammad Al Amin e Abdul Karm Al Kably, formando mais tarde o grupo Kambala. Membro dos Radio Tarifa e do ensemble madrilenho La Banda Negra, ao longo da sua carreira Wafir tem vindo a compor temas para filmes como o conhecido “Finisterra”. Da longa lista de colaborações com outros artistas fazem parte a sua irmã Rasha ou nomes como Eduardo Paniagua, Hevia, La Musgaña, Joaquín Ruíz, Djanbutu Thiossane e Amistades Peligrosas.

"Mirant Les Notícies", Cheb Balowski (Espanha) - pachanga, raï, gnawa, rock
Seguem-se
os catalães Cheb Balowski com “Mirant Les Notícies”, tema que faz parte do álbum “Plou Plom” (Musiqueta Que Enamora), editado em 2005. Terceiro trabalho do grupo, produzido por Stephane Carteaux (baixista dos Color Humano), e em que participam alguns elementos dos americanos Kultur Shock e dos franceses Radio Bemba. A designação da banda resulta da junção dos termos Cheb ("o jovem", em árabe), complemento habitual nos nomes dos cantores de raï argelinos, e Balowski (em polaco, o verbo balować significa "divertir-se bailando"), apelido do emigrante de Leste interpretado por Alexei Sayle na série de televisão inglesa “The Young Ones”. Formados em 2000 em Barcelona, depois de uma infância comum no bairro de Raval, os Cheb Balowski integram uma dezena de músicos - eles são Yacine Belahcene Benet, Isabel Vinardell Fleck, Marc Llobera Escorsa, Santi Eizaguirre Anglada, Jordi Marfà Vives, Daniel Pitarch Fernández, Jordi Ferrer Savall e Arnau Oliveres Künzi, Jordí Herreros e Sisu Coromina. Cantando em castelhano, catalão, francês e árabe, eles cruzam a música catalã e a cultura mediterrânica com a energia do raï, do gnawa, do reggae e do rock. Um ambiente festivo, que vai do flamenco e da pachanga aos ritmos balcânicos, árabes, africanos e mediterrânicos, assente na sonoridade de violinos, saxofones, trompetes, piano, bateria, acordeão, guitarra, baixo e todo o tipo de percussões.

"Liegga Gokčas Sis", Mari Boine Persen (Noruega) - joik, jazz, blues
A norueguesa Mari Boine Persen destaca-se nesta emissão com o tema “Liegga Gokčas Sis” (Num Manto de Calor), extraído do álbum “Eight Seasons”, lançado em 2003. Disco com arranjos que se concentram nos ambientes electrónicos, produzido por Bugge Wesseltoft, e onde colaboram, entre outros, os músicos Jah Wobble, Bill Laswell, Jan Garbarek e Juan Carlos Quispe. Nascida em Gámehisnjárga, Mari Boine tem lutado pela preservação das tradições e pelo reconhecimento dos direitos dos seus compatriotas sami, os habitantes da Lapónia, território situado no norte da Escandinávia. Mari Boine cresceu numa altura em que ainda era proibido falar o dialecto sami nas escolas e cantar o joik (yoik em inglês). Graças à pesada herança da colonização cristã, o canto mais característico dos sami foi durante muito tempo visto como a música do diabo. Uma veia xamânica, assente numa escala pentatónica, da qual Mari Boine e o seu ensemble herdaram o ritmo, as batidas e a espiritualidade, lembrando os tempos em que o homem estava mais próximo da natureza. A voz mística da embaixadora dos sami, que canta também em inglês, mistura então o joik com os blues, o jazz, a pop, o rock e mesmo a música electrónica. Acompanhados pela flauta, saxofone, guitarra baixo e bateria, são sons vocalizados, e por isso mesmo mais entoados que cantados, onde se evocam a beleza da terra e das montanhas, o sol da meia-noite nos meses de Verão ou as tradições pré-cristãs.

"Pitt Bull de Bologna", Chalart58 (Espanha) - reggae, jungle, hip-hop
Despedimo-nos com “Pitt Bull de Bologna”, tema retirado do primeiro disco a solo de Chalart58 “Recording”, editado em 2007. Trabalho misturado e produzido num estúdio móvel pelo próprio baterista e percussionista de Barcelona, membro dos La Kinky Beat, e que no currículo conta ainda com a participação em projectos como os Radio Bemba, Jaleo Real ou Fermin Muguruza - Euskal Herria Jamaica Clash. Dos encontros casuais que durante dois anos Chalart58 teve com muitos amigos resultou um conjunto de temas instrumentais e riddims (ritmos da música jamaicana), inspirados em géneros que vão do reggae e do funk ao hip-hop, e cuja base instrumental é encabeçada pela tríade eléctrica das guitarras, baixos e teclados. Sendo cada tema interpretado por um vocalista diferente, o leque de colaborações neste álbum é bastante alargado, destacando-se a presença de cantores e músicos como Matahary e Willy Fuego (La Kinky Beat), Rude (Barrio Beat), Hernan “Lucky” (Mamamilotas), Sito (Jaleo Real), Marco Fonktana (Aerolineas Subterraneas), David Bourguignon (Radio Bemba), Rubio (Nour), Arecio Smith (Asstrio), Marcel El Lipi (Ranking Soldiers), Sorkun, Dreadga ou os Bad Sound System.