quinta-feira, 31 de agosto de 2006
World Music Charts Europe - Setembro 2006
1º- SAVANE, Ali Farka Toure (Mali) - World Circuit
mês passado: 3ºlugar
2º- GOLD & WAX, Gigi (Etiópia, EUA) - Palm Pictures
mês passado: 1ºlugar
3º- BREATH, Mercan Dede (Turquia, Canadá) - Doublemoon
mês passado: 2ºlugar
4º- THE ROUGH GUIDE TO WEST AFRICAN GOLD, vários - World Music Network
estreia na tabela
5º- NIGER, Afel Bocoum & Alkibar (Mali) - Contre-Jour
mês passado: 4ºlugar
6º- IDJAGIEDAS, Mari Boine (Noruega) - Emarcy (Universal)
estreia na tabela
7º- NE UZ VIENU DIENU, Ilgi (Letónia) - UPE
mês passado: 5ºlugar
8º- MUSIQUES METISSES, vários - Marabi
estreia na tabela
9º- GRAND BAZAAR, Istambul Oriental Ensemble (Turquia) - Network Medien
estreia na tabela
10º- LA GHRIBA - LA KAHENA REMIXED, Cheb i Sabbah (EUA, Argélia) - Six Degrees
mês passado: 18ºlugar
11º- EL VIAJE, Gabriela (Argentina) - Intuition
estreia na tabela
12º- TRAGARE, Druzina (Eslováquia) - Indies
estreia na tabela
13º- POPLOR, Thomas Kocko & Orchestr (República Checa) - Indies
estreia na tabela
14º- MISH MAOUL, Natacha Atlas (Reino Unido) - Mantra
mês passado: 10ºlugar
15º- ELYSIUM FOR THE BRAVE, Azam Ali (EUA, Irão) - Six Degrees
estreia na tabela
16º- THE SEEGER SESSIONS, Bruce Springsteen (EUA) - Sony
mês passado: 12ºlugar
17º- REPUBLICAFROBEAT 2, vários - Lovemonk
mês passado: 23ºlugar
18º- AY AY LOLO, Menwar (Maurícias) - Marabi
mês passado: 11ºlugar
19º- ZANDISILE, Simphiwe Dana (África do Sul) - Skip
mês passado: 7ºlugar
20º- TRAVESIAS, Susana Baca (Peru) - Luaka Bop/Virgin
mês passado: 6ºlugar
quinta-feira, 24 de agosto de 2006
Emissão #23 - 26 Agosto 2006
Uma edição em que mais uma vez se destaca a rubrica Caixa de Ritmos, numa emissão especial, feita de poucas palavras, e inteiramente dedicada aos melhores temas africanos que até agora passaram neste programa. Eis a listagem:
"Madan", Salif Keita (Mali) - afropop, mandingo
"Mama", Mory Kanté (Guiné-Conacri) - afropop, kora music
"One For Senegal", Touré Kunda (Senegal) & The Pleb (Itália) - afro-rock, mbalax
"Plus Rien M'Étonne", Tiken Jah Fakoly (Costa do Marfim) - afropop, mandingo, soukous, african reggae
"Tounga", Issa Bagayogo (Mali) - mandig, wassoulou
"Sina Mali, Sina Deni", Khadja Nin (Burundi) - afropop, swahili music
"Mosquito Song", Seun Kuti & Egypt 80 (Nigéria) - afrobeat
"Laax", Omar Pène (Senegal) - mbalax
"Tsy Zanaka Mpanarivo", Jaojoby (Madagáscar) - salegy
"Wadatshulwa", Amadodana Asempumaze (África do Sul) - south african gospel
"Andesy Moramora", Koezy (Madagáscar) - madagascar traditional music
"Senegal Fast Food", Amadou & Mariam (Mali) - afro pop blues
(os dados sobre estes temas podem ser encontrados nos textos das emissões em que foram emitidos)
Jorge Costa
terça-feira, 22 de agosto de 2006
Bons Sons em Cem Soldos

O folclore alegre e arejado da serra com os Toques do Caramulo
(foto: Jorge Costa/Multipistas)
Entre 18 e 20 de Agosto, o MULTIPISTAS – MÚSICAS DO MUNDO rumou até à aldeia de Cem Soldos, no concelho de Tomar, para acompanhar a primeira edição do Festival Bons Sons. Um evento dedicado à música tradicional e não convencional, e que, de acordo com a organização, pretende “funcionar como uma plataforma de divulgação de novos grupos de música nacional de qualidade” e “promover o intercâmbio cultural”, levando o público a “viver a aldeia”.
O festival arrancou na sexta-feira, dia 18, com os efeitos visuais dos tomarenses ULTIMAcTO, grupo integrado no Sport Club Operário de Cem Soldos (SCOCS) e que apresenta peças de teatro para todas as idades. Anualmente, eles promovem na aldeia uma mostra com grupos nacionais e internacionais. A abrir a noite no centro da povoação estiveram também os GARAC com o espectáculo “Restos”. Um grupo de animação de rua da associação tomarense Canto Firme, que começou por animar ceias renascentistas, e que hoje apresenta cenas imaginadas e concebidas a partir de matérias e objectos comuns.
O festival arrancou com o jazz tradicional dos Desbundixie
(foto: Jorge Costa/Multipistas)
Na música, a estreia do palco situado no largo principal fez-se com os Desbundixie, banda de Leiria que se socorre da linguagem e do improviso, recuando até aos anos de 1920 ao enveredar por um estilo musical conhecido por dixieland, o jazz tradicional de New Orleans. Eles arrancaram os primeiros passos de dança a um público heterogéneo ainda morno, onde se podiam ver não só as caras de gentes da aldeia e arredores, mas também muitos jovens festivaleiros, alguns deles vindos do estrangeiro. Entre outros, desfilaram os temas “Mardi Grass” e “Royal Garden Blues”, um must jazzístico com que encerraram a actuação.
A animação prosseguiu com a música tradicional dos Toques do Caramulo, grupo da D’Orfeu – Associação Cultural de Águeda que procura reinventar livremente os temas populares daquela serra. Uma formação de sete a oito músicos que começou em 2000 com a oficina de dança, no ‘Andanças’, e que apresenta um folclore alegre, enérgico e arejado, fazendo uma ligação entre a folk rude de outrora e as novas músicas de hoje. Sempre com coreografias engraçadas em palco e muita comunicação com o auditório.

Os Bácoto com os ritmos eléctricos das percussões africanas
(foto: Jorge Costa/Multipistas)
Os Bácoto, que se estrearam em Cacilhas, foram a última banda da noite. E valeu a pena a espera, porque o ambiente de festa e dança electrizante contagiou completamente o público. Eles apresentaram um espectáculo baseado nos ritmos tradicionais afro-mandingues – cultura oriunda de uma zona que compreende a Guiné-Conacri, o Mali, o Burkina-Faso, a Libéria, o Senegal, a Gambia e a Costa do Marfim –, concentrando-se na sonoridade do djembé, símbolo supremo das percussões africanas.
A fechar o serão DJ Popkorn, uma das residentes no Barcode, em Braga, cujo portefólio sonoro vai do chill out ao electro, passando pela música alternativa nacional e internacional.
Sábado, dia 19, arrancou em Cem Soldos com o Canal 0, um projecto de animação de cinema, da autoria de João Cabaço e João Bento, e que tem como base a musicalização electroacústica de filmes de animação do século XX e de vídeos contemporâneos.
De regresso ao palco principal e a abrir a noite esteve a Orquestrinha do Terror, grupo que se serve de influências artísticas que vão da música ao cinema, dança, artes plásticas, circo, teatro ou literatura para recriar música cinematográfica. Eles fundem vários estilos musicais, desde a música portuguesa ao jazz manouche (cigano) e à música tradicional de Leste, o que culmina numa improvisação jazzística com base oriental. Cada tema é uma curta-metragem musical que retrata viagens a outros mundos e uma janela aberta para momentos introspectivos e eufóricos.

As Tucanas testaram a sonoridade dos materias e das vozes
(foto: Jorge Costa/Multipistas)
Seguiram-se as Tucanas, quatro jovens mulheres influenciadas também pelo teatro e dança, e que interpretam os seus temas, inspirados nas tradições portuguesas, africanas e brasileiras, tocando bidões, cabaças, pandeiros, surdos, djembés ou dumbas. Cantando em português e em dialectos imaginários como o “tucanês”, e percutindo instrumentos construídos por elas próprias, as Tucanas brincam e jogam com o ritmo e a harmonia, conjugando a sensibilidade feminina com a rudeza da percussão. Apesar da falha inesperada no gerador eléctrico, o concerto seguiu com a sua acústica quase inalterada. Regressada a corrente, o público não se poupou a aplausos.

O ritmo e a boa disposição dos Skareta a fechar o festival
(foto: Jorge Costa/Multipistas)
O fenómeno da noite veio mesmo do Entroncamento. Os Skareta, grupo que venceu o último concurso de bandas daquela localidade, fecharam em grande o festival. Sempre com boa disposição e ritmo, estes fizeram a plateia dançar euforicamente graças a uma palete sonora que vai do ska (estilo musical jamaicano, percursor do rocksteady e do reggae) de Leste ao afropunk latino, misturando bateria, baixo, guitarra, sopros e voz.
A fechar a longa sessão sonora, que se prolongou até ao nascer do sol, estiveram as DJ’s Kitchenette. Influenciadas pela música dos anos 70 e 80, elas seleccionam géneros actuais como o rock, punk, electro ou happy-hardcore, criando actuações intimistas com o público.
Para além dos concertos e das DJ sessions, o Bons Sons envolveu outras iniciativas como ateliês de dança contemporânea, dança oriental, rumba sevilhana e percussão em bidões. Houve também lugar a desportos radicais e actividades aeróbicas, bem como a uma mostra de artes plásticas e a uma feira de marroquinarias e artesanato pelas ruelas da aldeia de Cem Soldos.
O festival surge integrado no projecto “Acontece Cem Soldos”, iniciativa realizada a propósito das comemorações dos 25 anos da legalização do SCOCS. Esta associação, que organiza o Bons Sons, surgiu na década de 1960, movimentando sobretudo jovens que ocasionalmente regressam à terra. O plano integra também o programa “Avós e Netos”, cuja particularidade foi a de colocar duas gerações distantes a produzir a lagartixa em tecido que serviu de mascote ao festival.
Jorge Costa
EXTRA ...↓
VIDEOCLIP Desbundixie, Toques do Caramulo, Bácoto, Tucanas e Skareta ao vivo em Cem Soldos
quinta-feira, 17 de agosto de 2006
Emissão #22 - 19 Agosto 2006
Uma edição em que mais uma vez se destaca a rubrica Caixa de Ritmos, numa emissão especial, feita de poucas palavras, e inteiramente dedicada aos melhores temas em língua portuguesa que até agora passaram neste programa. Eis a listagem:
"Pão Prá Multidão", Donna Maria (Portugal) - electronic folk
"O Fim da Picada", Gaiteiros de Lisboa (Portugal) - portuguese folk
Dona Tresa, Galandum Galundaina (Portugal) - celtic folk
"Nangbar", Dazkarieh (Portugal) - folk rock, world fusion
"Santiago - Lisboa", Xosé Manuel Budiño (Espanha) - folk, celtic music
"Bossa Nova, Né?", Luiz Macedo (Brasil) - MPB
"Samba do Gringo Paulista [Zero dB reconstruction]", Suba (ex-Jugoslávia) - brasilian electronica
"Dimokransa", Mayra Andrade (Cabo Verde) - morna, funaná, coladera, batuque
"Sodade", Cesária Évora (Cabo Verde) e Eleftheria Arvanitaki (Grécia) - morna, coladera
"Balancê", Sara Tavares (Portugal) - afropop
"Rodopiou", Nazaré Pereira (Brasil) - carimbó, forró, capoeira, maracatu
(os dados sobre estes temas podem ser encontrados nos textos das emissões em que foram emitidos)
Jorge Costa
quinta-feira, 10 de agosto de 2006
Emissão #21 - 12 Agosto 2006
Uma edição em que se destaca a rubrica Caixa de Ritmos, numa emissão especial, feita de poucas palavras, e inteiramente dedicada aos melhores temas que passaram nas últimas dez emissões deste programa. Eis a listagem do melhor dos melhores temas do MULTIPISTAS - MÚSICAS DO MUNDO:
"Jani El Hob", Cheikha Rimitti (Argélia) - raï, châabi, gnawa music
"Ilham", Souad Massi (Argélia) - argelian folk, chaâbi
"We Were Gonna", Dengue Fever (Cambodja, EUA) - khmer rock, cambodian folk, pop
"Nafiya", Mory Kanté (Guiné-Conacri) - afropop, kora music
"La Realité", Amadou & Mariam (Mali) - afro pop blues
"Domingo Ferreiro", Luar Na Lubre (Espanha) - celtic folk
"Galicia", Urban Trad (Bélgica) - techno folk
"Kamppi", Maria Kalaniemi & Aldargaz (Finlândia) - finnish folk, jazz, rock, pop
"Tuulilta Tuleva", Värttinä (Finlândia) - traditional finnish folk/suomirock
"Pena", Šaban Bajramović (Sérvia) - gypsy music
"Listopad", Haydamaky (Ucrânia) - carpathian ska, ukranian dub machine, hutzul punk
"Venus Nabalera", Mau Mau (Itália) - folk-rock, latin rock
(os dados sobre estes temas podem ser encontrados nos textos das emissões em que foram emitidos)
Jorge Costa
sexta-feira, 4 de agosto de 2006
Emissão #20 - 5 Agosto 2006
"Momelukki & Mosto Leski", Alamaailman Vasarat (Finlândia) - chamber-rock, ethnic brass punk, kosher-kebab jazz
Os filandeses Alamaailman Vasarat (o nome significa Martelos do Submundo) a abrirem a emissão com os ritmos acelerados e frenéticos de “Momelukki & Mosto Leski”, tema extraído do álbum “Vasaraasia”, editado em 2000. Eles, que foram uma das presenças mais vibrantes no Festival de Músicas do Mundo de Sines, incendiaram a noite na Avenida da Praia com uma mistura de estilos, sempre com criatividade e um bom jogo entre melodia, harmonia e rítmo. Criados em 1997 em Helsínquia a partir do núcleo do grupo de rock progressivo Höyry-Kone, os Vasarat são um projecto acústico cheio de humor e energia. A banda apresenta-se como uma combinação de world music ficcional com elementos de heavy metal, jazz e música klezmer. Uma sonoridade caracterizável algures entre o chamber rock, o ethnic brass punk e o kosher-kebab jazz. São climas sombrios e texturas densas numa original mistura de timbres baseada em instrumentos de sopro (trombone e sax soprano), no violoncelo, no piano e no órgão, mas também em instrumentos como o didgeridoo e o shenhai (espécie de oboé indiano). E ritmos acelerados e frenéticos como este “Mamelukki & Musta Leski” provam que no rock não são precisas guitarras eléctricas."Breizh Positive", Jacques Pellen & Celtic Procession (França) - jazz rock, celtic music
As músicas do mundo prosseguem com Jacques Pellen, um dos melhores guitarristas bretões e um talentoso músico de jazz, e o colectivo Celtic Procession. Eles trazem-nos o tema “Breizh Positive”, extraído do álbum “Celtic Procession Live – Les Tombées de la Nuit”. Um trabalho gravado em Rennes por doze músicos a propósito do décimo aniversário daquela big band de geometria variável, criada em 1988. Um colectivo que reúne uma dezena de músicos tradicionais bretões e de jazz com a mesma paixão de Jacques Pellen pelo improviso. Com referências tão diferentes quanto o pianista de jazz Keith Jarrett, o compositor clássico Schönberg ou o o guitarrista bretão Dan Ar Braz, eles tentam misturar o jazz com temas e instrumentações de inspiração celta bretã, adicionando-lhes mesmo o rock e sons africanos. O cantor e clarinetista Erik Marchand, o violinista Jacky Molard ou o baterista argelino Karim Ziad são alguns dos músicos que aceitaram o desafio de acompanhar Jacques Pellen na edição deste ano do Festival de Músicas do Mundo de Sines."Nangbar", Dazkarieh (Portugal) - folk rock, world fusion
Neste Festival de Músicas do Mundo de Sines, mudamos de palco e vamos até Porto Covo para escutar os portugueses Dazkarieh. Eles trouxeram-nos o tema “Nangbar”, extraído do álbum do mesmo nome, editado em 2004. Conhecidos por navegarem entre os sons da Irlanda, Índia, África, Andes, Espanha e Balcãs, os Dazkarieh propõem-nos uma viagem pela diversidade musical do planeta. Um projecto genuinamente português que, à semelhança deste festival, procura a sua alma sonora nas culturas mais díspares. A formação dos instrumentistas dos Dazkarieh vai da música tradicional, experimental e erudita ao rock, o que contribui para o enriquecimento do processo criativo do grupo. Quanto à instrumentação, eles servem-se, entre outros, do bouzouki e da flauta transversal, da nyckelharpa (harpa tradicional sueca, semelhante a um violino com teclas) e do cavaquinho, da gaita transmontana e do bandolim. Formados em 1999 por Filipe Duarte, José Oliveira e Vasco Ribeiro Casais, os Dazkarieh começaram por ser conotados com o som celta e a folk gótica. Posteriormente, devido à fusão de materiais musicais tão diferenciados, e já assumidamente ligados à chamada world music, o grupo integrou então cinco novos elementos, passando a conceber canções em língua portuguesa. Recorde-se que até então o “dazkariano” era a base linguística de todas as suas músicas. "Fairground", Ivo Papasov & his Wedding Band (Bulgária) - wedding band music

Para já, seguem-se o búlgaro Ivo Papasov e a sua Wedding Band. Eles trazem-nos o tema “Fairground”, extraído do álbum do mesmo nome, editado em 2004. O rei da frenética e festiva stambolovo (a chamada música cigana de casamentos) encerrou, junto à praia, o festival de Sines. Nascido na fronteira da Bulgária com a Grécia e a Turquia, Papasov cresceu numa família cigana onde o clarinete é tocado há gerações. Em 1974 forma a Trakija Band, a qual se tornaria a melhor e mais solicitada orquestra de casamentos da região. Ao misturar a folk búlgara e dos Balcãs com elementos contemporâneos, Papasov criou um género a que se chamaria de wedding band music. Mas os problemas com a ditadura levam-no à prisão nos anos 80, o que atraiu a atenção internacional e fez crescer a sua popularidade. Considerado um dos maiores clarinetistas do mundo, Ivo Papasov é também um grande criador de jazz. Em homenagem ao seu talento, os búlgaros chamam-no de Aga (mestre). Papasov toca com a sua mulher, a cantora Maria Karafizieva, e com outros cinco músicos, que em palco surgem com instrumentos como a guitarra, o acordeão, a kaval (flauta tradicional da Bulgária) ou a gadulka (espécie de viola de arco búlgara). Uma mistura exuberante de sons e melodias com improvisações de jazz numa visão contemporânea das danças tradicionais da folk búlgara.
"Tcherno", Vaguement La Jungle (França) - klezmer, gypsy music, jazz, rock'n'roll Atrás os franceses Vaguement La Jungle com “Tcherno”, tema extraído do seu segundo e último trabalho “Aie Aie Aie”, editado em 2003. Mesmo a propósito, eles são um grupo orientado para a animação de festivais, criando concertos cheios de energia e bom humor onde a festa e a interacção com o público são parte essencial do espectáculo. Nas suas performances, os Vaguement La Jungle misturam música e teatro de rua. Com o seu cocktail fusionista, este quarteto propõe-nos um universo sonoro selvagem e estimulante. Um caldeirão mestiço onde borbulham a música cigana, árabe e judaica, o jazz e o rock‘n’roll, e que é servido com muita improvisação, espírito cáustico e letras libertárias. Uma aventura a escutar também com os olhos, já que a sua música arrasa fronteiras e cada concerto é um verdadeiro remédio contra o marasmo. Os Vaguement La Jungle conheceram-se nas ruas de Nantes e estão juntos desde 2000. Eles fazem parte da nova vaga de artistas franceses que representam as várias comunidades estrangeiras existentes em França e que lutam por uma integração na indústria musical francófona.
"Ya Fama", Toumani Diabaté & Symmetric Orchestra (Mali) - kora music, mbalax 
A jornada prossegue com Toumani Diabaté e a Symmetric Orchestra, uma das presenças mais marcantes na última edição do Festival de Músicas do Mundo de Sines. Eles trazem-nos “Ya Fama”, tema extraído do álbum “Boulevard de l’Indépendance”, editado este ano. Segundo a tradição mandinga, chama-se Diabaté ao griot do seu séquito que pela primeira vez toca kora, espécie de harpa africana em que a caixa de ressonância é uma cabaça. Hoje os Diabaté continuam no topo da aristocracia da harpa de 21 cordas e Toumani é o seu expoente máximo. Este começou a tocar kora aos cinco anos de idade e desenvolveu sozinho a sua técnica. Desde o final dos anos 80 que o mestre maliano tem procurado abrir uma nova janela para este instrumento. Foi o que aconteceu com o britânico Danny Thompson, os espanhóis Ketama, os norte-americanos Taj Mahal e Roswell Judd, que lhe permitiram explorar territórios desconhecidos que vão da folk britânica ao flamenco, blues e jazz. Toumani Diabaté tem colaborado com artistas de todo o mundo, mas foi com o conterrâneo Ali Farka Touré que gravou o disco “In the Heart of the Moon”, premiado no ano passado com um Grammy. Desde 1992 que tem o apoio da Symmetric Orchestra, formada por músicos de países do antigo império mandinga (Mali, Burkina, Guiné-Conacri ou Senegal) e que une a a música tradicional com guitarras eléctricas, bateria e teclados, interpretando repertório que vai da música de kora da Gambia, passando pelo mbalax senegalês e pelos ritmos dançáveis de influência latino-americana.
"Mosquito Song", Seun Kuti & Egypt 80 (Nigéria) - afrobeat
Atrás o saxofonista nigeriano Seun Anikulapo Kuti, filho mais novo de Fela Kuti, a figura régia da afrobeat, com o tema “Mosquito Song”, gravado ao vivo este ano em Dakar, no Senegal, no “Africa Live: The Roll Back Malária Concert”. Aos 9 anos, Seun já cantava coros nos concertos de Fela, tendo vivido junto do pai os últimos da vida dele, absorvendo tudo quanto este lhe ensinava. Depois da morte de Fela em 1997, Seun Kuti foi naturalmente aceite como sucessor na liderança da Egypt 80, a última banda do pai, e começa a assumir a renovação do legado. Com uma voz cada vez mais própria, ele mantém no entanto viva a mais original encarnação da afrobeat, usando uma sólida secção de baixo e o groove incomparável das vozes e percurssões africanas. Um etno-funk circular e hipnótico, com muito jazz à mistura. Seun lidera com tremenda energia a sua banda em palco, tocando reportório do pai e as suas próprias composições. Mantendo o tom político e social nas letras, refinando-se no saxofone e enriquecendo a afrobeat com outras músicas da sua formação, como o hip-hop, Seun é o mesmo dínamo em palco. Magia semelhante viveu-se no castelo de Sines na semana passada num concerto que, para além da orquestra Egypt 80, contou ainda com o baterista Tony Allen, companheiro de Fella Kuti na invenção da afrobeat, uma combinação de ritmos africanos, funk e jazz que colocou a Nigéria no mapa musical do século XX.
"Dimokransa", Mayra Andrade (Cabo Verde) - morna, funaná, coladera, batuqueEntretanto seguimos até Cabo-Verde com “Dimokransa”, de Mayra Andrade, um dos temas incluídos no álbum “Navega”, seu disco de estreia a solo, editado este ano. Um trabalho gravado de forma expontânea, com poucos arranjos pré-definidos, mas que levou tempo a amadurecer e atravessou diferentes mares. A mais jovem diva da música cabo-verdiana nasceu em Cuba e viveu em Cabo Verde, no Senegal, em Angola e na Alemanha. No entanto, foi em França, país onde hoje reside, que Mayra encontrou os seus ouvintes mais entusiasmados, um dos quais Charles Aznavour, que no ano passado a convidou para cantar com ele um dueto. Uma colaboração que cimentou o perfume de uma voz crioula quente e com grande sentido cénico no território da língua francesa. Mayra Andrade interpreta com destreza, sentido pop e maturidade todos os estilos clássicos da música do arquipélago, da morna ao funaná, da coladera ao batuque, mas a sua abordagem é a de uma nativa da ilha de Santiago, alegre e com fortes afinidades com a música negra do Brasil.
"Toada Velha Cansada", Cordel do Fogo Encantado (Brasil) - forró, axe, rock
Os brasileiros Cordel do Fogo Encantado, uma das maiores surpresas deste ano do Festival de Músicas do Mundo de Sines, trazem-nos um tema do álbum do mesmo nome, extraído do primeiro trabalho discográfico da banda. Em 1997 um grupo fazia nascer o Cordel do Fogo Encantado. Dois anos depois, a peça teatral transforma-se num espectáculo musical. O jovem quinteto pernambucano fala então de histórias de reis e dragões, de santos e bandidos, do princípio e do fim do mundo. Um projecto que reinventa várias tradições musicais e narrativas do sertão nordestino brasileiro – dos cantadores aos emboladores, passando pelos repentistas e autores de cordéis, folhetos de histórias vendidos nas feiras, – trazendo a sua força mitológica para o século XXI. A música dos Cordel de Fogo Encantado, um dos mais premiados projectos da nova música brasileira, parte de Pernambuco para se fundir noutras latitudes, destacando-se a pujança percurssiva, com o forró e o axe em fúria constante. A essa fusão juntam-se tradições índias, o folclore e a força demolidora dos tambores de culto africano, a par do rock, das texturas do violão e do carisma do poeta e vocalista psicadélico Lira Pães, claramente influenciado pelas cantigas de escárnio e maldizer.
"Galandún", Eliseo Parra (Espanha) - folk-rock, rap, hip-hop
O programa encerra com Eliseo Parra, um dos maiores conhecedores e reinventores do folclore espanhol e outra das revelações do Festival de Músicas do Mundo de Sines. Ele traz-nos agora o tema “Galandún”, extraído do álbum “De Ayer Mañana”, editado no ano passado. Uma expressão coloquial castelhana dá o título ao mais recente disco deste músico, resumindo na perfeição a sua identidade musical. Trabalho que integra uma ampla variedade de música tradicional espanhola, acrescentando-lhe estilos modernos como o rap, o hip-pop ou o chill out. Fazendo conviver como poucos o ontem e o amanhã, Eliseo Parra é hoje um dos mais estimulantes músicos de raiz tradicional da Europa. Iniciando-se como músico de rock, de jazz e até como membro de várias orquestras de salsa, ele começou em 1983 a investigar as músicas tradicionais das “tribos hispânicas”, registando as suas recolhas em vários discos e livros. Eliseo Parra acredita que a única forma de fazer com que o folclore sobreviva é retirá-lo do ambiente fechado dos museus e levá-lo para o palco. No seu repertório, onde dominam os ritmos de dança, as velhas músicas das Espanhas tornam-se sons do presente e do futuro. É esse folclore pujante e lúdico que se ouviu no encerramento em Porto Covo do programa de concertos do Festival de Musicas do Mundo de Sines. Uma fonte inesgotável de recursos que é apenas um ponto de partida para outras viagens musicais.
Jorge Costa
quinta-feira, 3 de agosto de 2006
Sines: ninguém pára as músicas do mundo

Interior do castelo de Sines na última noite do FMM
(foto: Jorge Costa/Multipistas)
Durante nove dias, uma imensidão de gente invadiu as pequenas e estreitas ruas de Sines para participar na oitava edição do Festival Músicas do Mundo (FMM). Um evento a que, pelo segundo ano consecutivo, o público soube corresponder, esgotando mais uma vez a lotação do castelo, preparado para acomodar 6500 pessoas. Artistas e bandas animaram a festa que este ano se distribuiu por quatro palcos, num total de quase três dezenas de concertos, 160 músicos em representação de 23 países e uma enorme variedade de géneros musicais.
Organizado pela Câmara Municipal daquela localidade, e fruto da dinâmica do autarca Manuel Coelho (director do evento) e de Carlos Seixas (director criativo e de produção), o FMM teve então de se expandir para fora das muralhas. Desta forma, os concertos também decorreram na Avenida da Praia, em Sines, e junto ao Porto de Pesca, em Porto Covo. Juntou-se-lhe ainda o Centro de Artes de Sines, que acolheu iniciativas paralelas como exposições de fotografia, workshops, uma feira do livro e do disco, um ciclo de cinema documental, jam sessions, conversas sobre arte e música, encontros com os artistas, animação de rua e ateliers para as crianças.
E são cada vez mais os visitantes que acorrem a esta cidade do litoral alentejano. Desde a primeira edição do FMM, em 1999, que já foram contabilizados cerca de 115 mil espectadores, mais de 40 mil deles só este ano. Uma cifra que quase duplicou em relação a 2005, quando Sines acolheu cerca de 25 mil pessoas. Para acompanhar o aumento de espectadores, o festival foi sofrendo diversas modificações, sem contudo enveredar por um lógica mais comercial. Ao escolher fugir a uma programação de pop formatada ou rock convencional, o FMM captou e criou novos públicos, tornando-se uma referência nacional.

O público encheu o recinto para assistir aos concertos
(foto: Jorge Costa/Multipistas)
De porto voltado para o mundo, Sines transformou-se num ancoradouro das rotas musicais dos cinco continentes. O FMM tem vindo precisamente a apostar num mosaico de músicos e grupos de grande qualidade, apresentando lado a lado raízes muito diversas. O sucesso dos últimos anos tem demonstrado aliás a existência de público para o alternativo caldeirão musical que fervilha aqui e além-fronteiras.
São diferentes culturas em contacto naquele que é considerado o maior festival do género no país. “É uma forma de dar a volta ao mundo sem ter que pagar o bilhete”, referiu em entrevista à Som Digital a cantora cabo-verdiana Mayra Andrade, lembrando que desta forma o planeta se vem dar a conhecer ao público português. E com a crescente apetência pela world music, esta começa finalmente a ganhar terreno em Portugal. Falta agora combater o interesse fortuito dos media pelo género, reforçar a sua presença nas rádios nacionais e, ouse-se dizer, criar mesmo um programa de televisão ou um canal no cabo. Altos voos? Que se tirem as devidas elações do sucesso da edição deste ano do FMM. O rastilho acendeu-se em Sines. Agora já ninguém pára as músicas do mundo.
Jorge Costa
Os blues do Saara Ocidental, na voz de Mariem Hassan
(fotos: Jorge Costa/Multipistas)

A folk electrizante das filandesas Värttinä, num dos pontos altos do festival
(fotos: Jorge Costa/Multipistas)
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VIDEOCLIP Värttinä ao vivo em Sines
Venham mais músicas do mundo!

Tendo em conta o seu público-alvo, é de louvar que pela primeira vez, ainda que de forma modesta, a Antena 3 tenha feito o devido acompanhamento de um acontecimento de escala como o Festival de Músicas do Mundo de Sines. Apesar das limitações, o “Planeta 3”, apresentado semanalmente pela Raquel Bulha, vale pelo gesto pioneiro, pela atitude de resistência e pela oportunidade que dá ao país em respirar algum oxigénio sonoro étnico, coisa ainda rara na telefonia portuguesa, à excepção do “Raízes”, da Antena 2, e de um ou outro programa nas estações locais e regionais, como é o caso do MULTIPISTAS – MÚSICAS DO MUNDO.
Convém aliás lembrar que as rádios públicas tanto têm sido parte da solução como do problema. O exemplo vem da emissora estatal mais orientada para o público tendencialmente atento ao universo das músicas do mundo: nas 168 horas de emissão semanal da Antena 3, apenas uma é dedicada na totalidade e sem complexos à world music. Precisamente o “Planeta 3”.
É certo que a estação, que em 1994 veio ocupar o lugar vago deixado anos antes pela defunta Rádio Comercial, então emissora juvenil da RDP, construiu a sua personalidade a partir de um modelo programático mais baseado na cultura anglo-saxónica. Razão pela qual, passada pouco mais de uma década, não será fácil sensibilizar para este ambiente musical um auditório cronicamente habituado à linguagem da pop e do rock e com dificuldade em abrir-se a outras referências. Um processo necessariamente lento num país que insiste em esquecer as suas raízes musicais e em fazer orelhas moucas do seu imenso património etno-musical. Quando aqui ao lado, na Galiza, a música celta é considerada o rock dos jovens, porque terão de ser os distantes Estados Unidos a construir isoladamente o mapa sonoro de toda uma geração de portugueses?
Ainda que a música do mundo, vista numa perspectiva de Portugal para fora, não se esgote na melódica latinidade e no vibrante afropop, tão na moda nos dias que correm, a abordagem mais calorosa do “Planeta 3” não esconde antes revela os grandes trunfos da música dos povos: a alegria e o ritmo, que no fundo não são mais do que os impulsos básicos da vida. Seguindo essa mesma fórmula, o MULTIPISTAS – MÚSICAS DO MUNDO procura modestamente furar o cinzentismo e a homogeneidade musical do dial. Um formato musical que acompanha a linha de evolução do conceito de música do mundo, hoje um imenso e intenso tabuleiro de fusões sonoras onde género e géneros se esfumam diariamente.
Admito que despertei para este tipo de música ao ouvir anos a fio a homóloga espanhola Radio 3 – coisa fácil junto à fronteira, mas que com o web streaming deixou de ser um exclusivo de quem vive na raia –, porque na rádio portuguesa nunca houve grande abertura para um universo musical que, acertadamente, preenche quase por completo de manhã à noite a grelha de programação daquela emissora e de outras equivalentes europeias. Afortunadamente (para eles e para alguns de nós), do lado de lá os microfones da Rádio Nacional de Espanha continuam à disposição dos "mundialescos dinosauros radialistas", que nos seus programas de autor – outra raridade cada vez maior por cá – partilham connosco a sua bagagem musical étnica, nos alimentam a curiosidade pela história e cultura dos povos distantes e nos ajudam a encontrar referências e a construir a partir daí uma palete diversificada. Que ninguém duvide que será tudo isto que iremos lembrar daqui a uns anos ao perspectivarmos o nosso passado.
A rádio pública, à luz do modelo europeu de radiodifusão e seja ela feita para jovens ou adultos, é isto mesmo: uma porta aberta para o mundo. Às rádios ditas comerciais caberá seguir, se assim o entenderem, outro caminho mais "genérico" e "asséptico". E é por este custo acrescido e para garantir o direito à diferença que todos nós pagamos juntamente com a factura da luz a chamada “Contribuição Audiovisual”. Caso contrário, perante o incumprimento do compromisso do Estado com os cidadãos que representa, de que forma se poderia legitimar esta taxa “voluntária”?
E ainda que a "imagem sonora" da espanhola Radio 3 fique alguns pontos atrás do que se faz na Antena 3, aquela estação acaba por levar a melhor no que toca a conteúdos e a diversidade. Seja pelos comentários contextualizados e bem argumentados ou pelas críticas sempre reflectidas destes senhores, quase todos eles com alguma bibliografia publicada sobre a rádio musical da área da pop, do rock ou da world, coisa que por cá parece desde já ser uma matéria irrelevante junto de todos, generalizada que está a ideia da música em rádio como o único suporte linguístico e mero conteúdo de entretenimento.
Cada vez mais a palavra (não confundir com o palavreado sem nexo) será a salvação da rádio, mesmo que para já não saibamos o que irá acontecer à oitava arte e que transformações poderão ocorrer à telefonia, passem elas ou não pelos podcasts ou pela rádio digital, interactiva e com integração de serviços. Cada um de nós terá isso sim de fazer um esforço para que as coisas mudem pouco a pouco. A música do mundo precisa de um airplay condigno e regular em Portugal!
Proponho desde já a partilha de experiências entre todos os agentes de divulgação musical, sobretudo aqueles de nós que, na blogosfera ou no éter local e regional, com poucos meios e muito amor à camisola, insistem em ousar quebrar os pressupostos da estandardização musical que diariamente nos vai digerindo as referências. Associemo-nos então para que as músicas do mundo possam ser apreciadas por todos, sem embaraços, tal como em tempos remotos. Este universo não pode ser visto como uma cultura alternativa, desligada do seu contexto social, e cada vez mais apenas sujeito à apreciação insípida de uma crítica distante. No nosso democrático país, falta fazer-se essa revolução cultural. E para contrariar o lado negativo da tradição, não deleguemos de novo a tarefa noutra geração.
Jorge Costa
quarta-feira, 2 de agosto de 2006
World Music Charts Europe - Agosto 2006
1º- GOLD & WAX, Gigi (Etiópia, EUA) - Palm Pictures
mês passado: 3ºlugar
2º- BREATH, Mercan Dede (Turquia, Canadá) - Doublemoon
mês passado: 1ºlugar
3º- SAVANE, Ali Farka Toure (Mali) - World Circuit
mês passado: 35ºlugar
4º- NIGER, Afel Bocoum & Alkibar (Mali) - Contre-Jour
mês passado: 7ºlugar
5º- NE UZ VIENU DIENU, Ilgi (Letónia) - UPE
mês passado: 2ºlugar
6º- TRAVESIAS, Susana Baca (Peru) - Luaka Bop/Virgin
mês passado: 11ºlugar
7º- ZANDISILE, Simphiwe Dana (África do Sul) - Skip
mês passado: 13ºlugar
8º- LA CANTINA, Lila Downs (EUA) - Peregrina/Narada
mês passado: 4ºlugar
9º- WONAI, Oliver Tuku Mtukudzi (Zimbabwe) - Sheer Sound
mês passado: 18ºlugar
10º- MISH MAOUL, Natacha Atlas (Reino Unido) - Mantra
mês passado: 5ºlugar
11º- AY AY LOLO, Menwar (Maurícias) - Marabi
mês passado: 174ºlugar
12º- THE SEEGER SESSIONS, Bruce Springsteen (EUA) - Sony
estreia na tabela
13º- MHM A-HA OH YEAH DA-DA, Darko Rundek & Cargo Orkestar (Croácia) - Piranha
mês passado: 16ºlugar
14º- YELLOW FEVER, Senor Coconut (Alemanha, Chile) - Essay Recordings
mês passado: 10ºlugar
15º-QUE LINDA ES MI CUBA, Saborit (Cuba) - Tumi Music
estreia na tabela
16º- LUNGHORN TWIST, Accordion Tribe (vários) - Intuition
mês passado: 8ºlugar
17º- TIMELESS, Sérgio Mendes (Brasil, EUA) - Concord/Universal
mês passado: 19ºlugar
18º- LA GHRIBA - LA KAHENA REMIXED, Cheb i Sabbah (EUA, Argélia) - Six Degrees
estreia na tabela
19º- LUNATICO, Gotan Project (França, Argentina) - Ya Basta
mês passado: 6ºlugar
20º- THE ROUGH GUIDE TO THE MUSIC OF IRAN, vários (Irão) - World Music Network
mês passado: 32ºlugar
sexta-feira, 28 de julho de 2006
Emissão #19 - 29 Julho 2006
"Vihma", Värttinä (Finlândia) - traditional finnish folk/suomirock
As Värttinä, que mais logo (sábado) vão estar no Festival de Músicas do Mundo de Sines, a abrirem a emissão com “Vihma” (Granizo), tema extraído do álbum do mesmo nome, editado em 1998. A mais conhecida banda da folk contemporânea finlandesa, que este ano celebra o seu 23ºaniversário, traz-nos uma apelativa mistura de pop e rock ocidental com folk europeia e nórdica. As Värttinä são conhecidas por terem inventado uma visão contemporânea da tradição vocal feminina e da poesia popular da Carélia, uma região isolada na fronteira entre a Finlândia e a Rússia, reforçando as letras emocionais com ritmos em fino-úgrico, idioma antecessor do finlandês. Alguns temas deste sétimo disco das Värttinä incluem também cantos da república russa de Tuva. O grupo, que nasceu em Raakkylaa, é hoje formado pelas vozes enérgicas e harmónicas de Mari Kaasine, Johanna Virtanen e Susan Aho, suportadas por seis músicos acústicos que aliam a instrumentação tradicional e contemporânea (feita à base da guitarra, violino, acordeão, baixo e percussões) aos ritmos complexos e arranjos modernos. Uma base rítmica sólida e o mesmo vigor e calor vocal de sempre."O Fim da Picada", Gaiteiros de Lisboa (Portugal) - portuguese folk
As músicas do mundo prosseguem com os Gaiteiros de Lisboa, que esta semana também estiveram no Festival de Músicas do Mundo de Sines. Eles trazem-nos “O Fim da Picada”, tema extraído do seu último trabalho “Sátiro”, editado em Junho. Cada vez mais voltados para o Mediterrâneo, neste seu quarto trabalho de originais os Gaiteiros de Lisboa abarcam desde os sons de Trás-os-Montes às polifonias alentejanas, passando pelo fado. São convidados Mafalda Arnauth, que canta um poema de Florbela Espanca, e o violinista Manuel Rocha, da Brigada Vítor Jara. Desde 1991 que os Gaiteiros de Lisboa criam de forma inovadora música tradicional portuguesa, baseando-se para isso nas tradições vocais, nos ritmos do tambor e na sonoridade das gaitas e flautas, que dão à sua música um ar medieval. Os músicos deste grupo, que utilizam ainda a sanfona, a trompa, a tarota (oboé catalão) e o clarinete, têm colaborado em projectos de rock, jazz ou música clássica com José Afonso, Sérgio Godinho, Vitorino, Amélia Muge, Carlos Barretto, Rui Veloso, Sétima Legião ou Adufe. O seu experimentalismo constante leva-os a reinventar ou criar instrumentos como os “túbaros de Orpheu” (aerofone múltiplo de palhetas simples), a “cabeçadecompressorofone” (aerofone de percussão) ou o “clarinete acabaçado” (aerofone de palheta simples). Neste trabalho juntam-se-lhes ainda os cordofones, os flautões (aerofones de arestas) e o sanfonocello (sanfona baixo). Um ambiente de festa, recheado de sons desconhecidos e de percussões populares."Montañés", Rarefolk (Espanha) - freestyle folk/folk-rock
Os Rarefolk trazem-nos o tema “Montañés”, extraído de “Unimaverse” (um jogo de palavras entre os conceitos de unidade e universo), terceiro trabalho dos sevilhanos mais audazes do freestyle folk, onde a banda mistura de forma criativa o universo do rock e da electrónica com a música africana, celta, oriental e até mesmo o jazz. Os Rarefolk começaram por fazer folk num estilo puro, mas pouco a pouco foram renovando não só a banda mas também a sua visão, fundindo influências do norte da Europa e do norte de África e submergindo-se num novo universo de estilos e ritmos. Depois de se terem dado a conhecer como Os Carallos na exposição mundial de Sevilha, em 1992, uma editora recém-criada oferece-se para editar o seu primeiro disco. Mais tarde criavam a “Fusión Art”, gravando eles próprios e de forma artesanal o álbum “Unimaverse”. Um trabalho ousado e experimental em que recuperam muita da frescura e simplicidade inicial. Nele participam a violinista escocesa Michelle McGregor e o percursionista senegalês Sidi Samb – este último responsável pelas letras do grupo, interpretadas em castelhano, francês e wolof (dialecto do Senegal) –, e músicos como DJ Abogado del Diablo (Narco), Andreas Lutz (O’Funkillo) e a senegalesa Fátuo Diou."Ilham", Souad Massi (Argélia) - argelian folk, chaâbi

Segue-se Souad Massi com “Ilham” (Inspiração), tema onde esta evoca as suas raízes berberes e a música tuaregue. Considerada a Tracy Chapman do Magrebe, Souad Massi trouxe uma nova inspiração folk à música argelina. Esta jovem muçulmana, que se recusa a falar em nome do Islão e a ser uma activista da causa berbere, nunca tocou uma nota de raï. O seu gosto, mais orientado para o rock ocidental, o chaâbi e a música andaluza, fê-la criar um estilo único. A nostalgia e a dor do exílio são os temas centrais deste seu último trabalho, o álbum "Mesk Elil", editado no ano passado. Desde 1999 que a jovem vive exilada em França. Numa ida à Tunísia para realizar mais um concerto reencontrou os aromas da madressilva, uma planta que lhe fez lembrar a sua infância na Argélia e que daria o nome ao seu terceiro álbum. Na adolescência, Souad Massi acompanhou com a sua guitarra o grupo de flamenco Triana d'Alger e mais tarde a banda argelina de rock Atakor. Durante a vaga da jeel music (a pop oriental), regressa à música country, universo sonoro em que se inspirou, acabando por cruzar os tormentos da música argelina com os prazeres melódicos do Ocidente.
"N'Ta Goudami", Cheikha Rimitti (Argélia) - raï, châabi, gnawa music
A argelina Cheikha Rimitti (falecida no passado mês de Maio, aos 83 anos) com o tema “N’Ta Goudami”, extraído do álbum do mesmo nome, editado em 2005. Órfã e rodeada de pobreza, aos vinte anos Rimitti junta-se aos músicos ambulantes Hamdachis, cantando e dançando em cabarés. Nas mais de 200 canções que escreveu fala das alegrias e das tristezas da vida, quebrando tabus ao abordar temas como a sexualidade feminina, o alcoolismo ou a guerra. A vida boémia e a sua rebeldia feminista forçam-na ao exílio em França nos anos 60, país onde encontraria um novo público, chegando a gravar um disco de pop-raï com o rocker experimental Robert Fripp. Cheikha (sénior) Rimitti realizou concertos em todo o mundo, associando-se a nomes como Oum Keltoum, Cheikha Fadela ou mesmo os Red Hot Chilli Peppers. A mãe do raï é uma referência para as estrelas mais jovens deste género, não só pela liberdade de expressão que conquistou e pela rebeliião linguística e moral, mas também por lembrar que a fé espiritual pode coexistir com o prazer físico. O seu último album foi gravado em Oran, berço do raï. Um trabalho com marcas daquela cidade, sintetizador de voz e caixa de ritmos, onde a voz áspera e suave de Rimitti é combinada com acústica moderna e instrumentos tradicionais como o bendir (instrumento de percussão), o tar (alaúde iraniano), a gasbâ (flauta tunisina) e a gallal (uma espécie de pandeireta). Tudo à mistura com influências africanas do gnawa, harmonias árabe-andalusas do châabi e improvisos da soul argelina."M'Be Ddemi", Cheikh Lô (Senegal, Burkina-Faso) - afropop, mbalax

A jornada prossegue com Cheik Lô e o tema “N’Jariñu Garab” (A Árvore). Cheikh Lô vive em Dakar, a capital do Senegal, mas nasceu e cresceu no Burkina-Faso. A sua música constrói-se a partir da pop característica daquela cidade e dos ritmos mbalax, bem ao estilo do conhecido senegalês Youssou N'Dour, que produziu o seu primeiro álbum em 1995. Cheik Lô foi membro da Orchestre Volta Jazz, a qual tocava sucessos cubanos e congoleses, bem como versões pop de músicas tradicionais do Burkina-Faso. Em 1978 mudava-se para o Senegal, onde começa por tocar com várias bandas. A música acústica e eléctrica de Cheik Lô, que fez dele uma estrela no Senegal e na Europa, explora ainda elementos de salsa, rumba congolesa, folk e jazz, bem como impulsos de reggae, soukous e um sabor a Brasil. No album “Bambay Gueej” (Bamba, Oceano de Paz), editado em 1999, Cheikh Lô adorna estes elementos com o funk e a soul. De novo uma floresta de percussões, guitarra acústica e sons afro-cubanos.
"Nafiya", Mory Kanté (Guiné-Conacri) - afropop, kora music
Atrás Mory Kanté, um dos mais conhecidos cantores e multi-instrumentistas africanos. Ele trouxe-nos “Nafiya” (Pessoas Más), um tema sarcástico contra a falta de entreajuda entre o povo africano, extraído do álbum “Sabou” (Causa). Um trabalho lançado em 2004 e que mistura sons contemporâneos e tradicionais, fundindo melodias griot e batidas funk. Sem abandonar a guitarra acústica e o estilo eléctrico, Mory Kanté regressa às suas raízes guienenses com um álbum acústico dominado por instrumentos tradicionais africanos como a kora (espécie de harpa) e o balafon (espécie de xilofone africano), quase sempre tocados por ele. Ao fazê-lo, segue o exemplo de Youssou N’Dour e Salif Keita que, para fazerem álbuns mais tradicionais, abandonaram estilos orientados para a pop. Neste trabalho, o músico é acompanhado por coros femininos, onde se apresentam vozes como Mariamagbe Mama Keita, e por um painel de luxo de instrumentistas como o flautista africano Babagalle Kante. Natural da Guiné-Conacri e herdeiro da tradição dos griots, Mory Kanté tornou-se conhecido ao juntar-se na década de 70 à Rail Band, de Bamako, no Mali, grupo cujo som combinava o funk e a música tradicional. O estrelato viria nos anos 80 quando o músico se mudou para Paris. Em 1987, com a edição em França do seu terceiro álbum, o funk mandingo de Kanté triunfava finalmente. Graças à música “Yéké Yéké”, ele foi o primeiro artista africano a vender um milhão de singles. Para além de música, actualmente Mory Kanté é também embaixador das Nações Unidas na luta contra a fome."Galicia", Urban Trad (Bélgica) - techno folk
Entretanto seguimos pelos caminhos da folk urbana com os belgas Urban Trad, que nos trazem o tema “Galicia”, extraído do álbum “Kerua”, editado em 2003. Como o próprio nome indica, os Urban Trad combinam a melhor música tradicional com ritmos modernos, criando uma folk influenciada por um ambiente techno. O projecto arrancou em 2000, quando Yves Barbieux, compositor da banda Coïncidence, decidiu reunir uma vintena de artistas da cena tradicional belga para misturar música celta com sons urbanos. Se inicialmente se tratava de conceber um primeiro álbum, o êxito alcançado encorajou o autor a juntar outros músicos aos Urban Trad. No Festival Eurovisão da Canção realizado na Letónia em 2003, os oito elementos do grupo conquistam o segundo lugar e o grande público. Com “Sanomi”, uma canção interpretada num idioma imaginário, levaram pela primeira vez o característico timbre da gaita-de-foles ao palco da Eurovisão. Um grupo de música de inspiração tradicional, mas ancorado no presente, já que instrumentos acústicos como o acordeão, o violino e a flauta são acompanhados pelo canto e por uma secção rítmica cheia de energia e musicalidade. Volvidos três álbuns, o repertório dos Urban Trad passou a abranger, para além da música celta, a Escandinávia, a França, a Espanha e os países de Leste. É assim a música tradicional europeia do século XXI."Se Escaparon", Bombon (Hunduras) - ragamuffin, son, funk
O programa encerra com o tema "Se Escaparon", uma história de rebelião juvenil que fala de raparigas que fogem de casa às escondidas e são surpreendidas na pista de dança pelo pai, que pensava que elas estavam a dormir. A narrativa musical pertence aos hondurenhos Bombon, radicados em Miami e que criam um estilo musical moderno, feito da mistura de ragamuffin jamaicano, son cubano e funk. A crescente influência da música latina a nível internacional tem contribuído para que esta se desenvolva fora do seu território geográfico natural. Um interesse explicado pelos ritmos e melodias apelativas, embora actualmente a sua fluência sonora cada vez mais se deva à sucessiva mistura com o universo da dança e com estilos urbanos contemporâneos afro-americanos. E ainda que a música latina vá retendo elementos da tradição, esta está em constante mudança e evolução. Uma equação onde entram, entre outros, o funk, o hip-hop, a soul, o rhythm & blues ou o rock, mas onde o resultado continua a ser sempre a fórmula perfeita para um ambiente de “fiesta”.Jorge Costa
sexta-feira, 21 de julho de 2006
Emissão #18 - 22 Julho 2006
"Battle Of The Species", Antibalas Afrobeat Orchestra (EUA) - afrobeat
Os Antibalas Afrobeat Orchestra inauguram a emissão desta semana com “Battle Of The Species”, tema extraído do seu trabalho de estreia “Liberation Afrobeat Volume I”, lançado em 2001. Este colectivo multiracial (eles são latinos, afro-americanos, africanos e americanos asiáticos que vivem em Nova Iorque nos bairros de Brooklyn, Manhattan e Bronx, e em Bayonne, na Nova Jérsia), formado em 1998 pelo saxofonista Martin Perna, inspirou-se no saxofonista e activista nigeriano Fela Anikulapo Kuti, fazendo renascer a herança musical do fundador da afrobeat. Um género em que os Antibalas Afrobeat Orchestra puderam enquadrar os diferentes interesses musicais e preocupações políticas de cada um dos seus membros. O som desta banda nova-iorquina, cuja formação varia entre os 14 e os 20 elementos, combina highlife, jazz, soul, funk, dub, ritmos e percussões africanas e cubanas. Eles têm tocado não só com outros criadores do legado da afrobeat, entre eles o percussionista Tony Allen ou o trompetista Babatunde Williams, mas também aberto as fronteiras a James Brown, No Doubt, Wyclef Jean ou Trey Anastasio. O cariz político das letras e as posições provocadoras dos Antibalas são outro dos aspectos da herança de Kuti. Estas incitam à insurreição e à “desfranchização” do mundo, atacando o sistema capitalista em inglês, castelhano e yoruba. Consciência social e mensagens políticas à mistura com muito ritmo e percussão…"Sina Mali, Sina Deni", Khadja Nin (Burundi) - afropop, swahili music
As músicas do mundo prosseguem com Khadja Nin e o tema “Sina Mali, Sina Deni” (Livre), extraído do álbum “Sambolera”, editado em 1996. Desde o início da sua carreira que Khadja, natural do Burundi, tem procurado criar fusões musicais capazes de cruzar fronteiras geográficas e culturais. É por isso que uma vez afirmou que a sua música não deveria ser classificada como “branca” ou “negra”, mas antes como “café com leite”. Ela mistura ritmos tradicionais africanos, afro-cubanos e brasileiros com modernas melodias pop e rock. Nas suas letras fala sobre as crianças da rua, a guerra e a sua luta contra todas as desigualdades. Aos sete anos, Khadja Nin torna-se uma das vocalistas principais do coro Bujumbura. Tal era a sua paixão pela música, que mais tarde formava o seu próprio grupo. Depois de ter ido estudar para Kinshasa, capital do Zaire, Khadja Nin casa e emigra para a Bélgica com o seu filho de dois anos. Conhece então o músico Nicolas Fiszman que, impresionado pela sua voz, a convida a escrever com ele alguns temas. Depois do primeiro trabalho, em 1996 lança o disco “Sambolera”, que a catapultou para a fama. Um álbum onde canta em suaíli, kirundi (idioma oficial do Burundi) e francês. Uma destas músicas ocuparia mesmo o topo das tabelas francesas, depois de o canal de televisão TF1 ter feito dela um sucesso de verão. Entretanto, Khadja Nin actuou por várias vezes com Sting e a estrela do raï Cheb Mami. Khadja, que actualmente vive no Mónaco, mantém a esperança de um dia poder regressar ao Burundi."Laax", Omar Pène (Senegal) - mbalax
Ao contrário de Youssou N’Dour, cuja música é refinada e um pouco aristocrática, Omar Pène, que nos apresenta o tema "Laax", está mais enraízado na vida do dia a dia, retratando a realidade dos jovens, dos desempregados e dos camponeses senegaleses. Ao misturar as sonoridades do mbalax, os ritmos do blues, do jazz, do reggae e da salsa, Omar Pène tornou-se uma das lendas de sucesso do Senegal. O talento vocal e o afro-feeling de Omar Pène foram descobertos por Balla Diagne, músico da Kadd Orchestra, que o conheceu em Dakar, cidade onde este cresceu cantando e fazendo música com latas de óleo. Encorajado a seguir uma carreira musical, Omar Pène abandona então o futebol, a sua grande paixão. Mais tarde integra os Super Diamono, banda de que se tornaria líder. Com estes representantes da nova geração senegalesa (em wolof, Diamono significa geração), foi explorando uma variedade de estilos, do jazz aos blues e do reggae ao mbalax (som característico do Senegal, que se generalizou nos anos 80, inicialmente representado por Youssou N’Dour e Super Etoile). Neste álbum “25 Ans”, editado em 2001, Omar Pène volta-se para o mercado internacional. Gravado em Dakar e misturado em Paris, este trabalho explora temas antigos e actuais do seu repertório. A voz quente, profunda e expressiva de Omar é acompanhada pelo baixo, pela guitarra acústica e por toques de percussão. As suas músicas reflectem a preocupação com os problemas do dia a dia, o exílio, os relacionamentos ou os assuntos económicos e sociais. Canções que incentivam os jovens senegaleses a procurarem o seu futuro em África."N'Kodo", Djamel Laroussi (Argélia) -
rap, raïSegue-se Djamel Laroussi com o tema “N’Kodo”, extraído do álbum “Djamel Laroussi Live”, gravado ao vivo em Colónia, na Alemanha. Um trabalho que arranca na aldeia dos três Marabouts (Marabout é um santo com um papel crucial nos países sub-sarianos e do Magrebe), solo nativo dos antecessores deste músico argelino. Autor, compositor, cantor e multi-instrumentista, o antigo guitarrista de Cheb Mami é também um exímio tocador de baixo, derbouka (instrumento de percussão magrebino), gumbri (baixo de três cordas do Saara) e t'bel (espécie de timbale marroquino). Num reencontro de instrumentos tradicionais e modernos, Djamel Laroussi apresenta uma mistura global de ritmos, harmonias e melodias. Provavelmente é por esta razão que tem sido muito requisitado para tocar lado a lado com músicos e bandas como Cheb Mami, a Orchestre National des Barbès ou o jazzman Graham Haynes. Longe dos estereótipos habituais do raï, Djamel Laroussi navega num extenso universo que vai do Egipto a Marrocos. Tendo como ponto de partida as raízes norte africanas do chaâbi e do gnawa, a sua música inspira-se nos sons ocidentais do jazz, dos blues, do reggae, da pop, do hip-hop, do funk e do rock, e nos ritmos latinos da salsa, do samba e do merengue. Uma extensa mistura da qual resultam baladas em francês, árabe e berbere, misturadas com parábolas e poemas de amor.
"L'Histoire", Cheb Tarik (Argélia) - raï hip hop, reggae
A viagem musical continua com Cheb Tarik e o tema “L’Histoire”, extraído do álbum “Metisstyle”, editado em 2001. O intérprete e compositor argelino, cujo verdadeiro nome é Mohammed Tarik, mistura o raï com influências do rap, funk, salsa e rhythm & blues. No final da década de 80, quando Cheb Tarik se mudou para Paris, o compositor Maghni propôs-lhe o desafio de rejuvenescer o raï. Em 1994, ano em que Cheb Hasni, o rei do raï sentimental, foi assassinado, Tarik presta homenagem a este último com um álbum que na Argélia venderia mais de cem mil exemplares. Graças a esse sucesso, Cheb Tarik produziu mais dois álbuns de raï tradicional, não deixando de neles integrar géneros que o marcaram na adolescência como o funk e o reggae, e de colaborar com nomes como Saïan Supa Crew, Bouba, Gipsy Kings e Tonton David. Três anos depois decide aliar o rap ao raï, transformando com CC Raïder o clássico “Reggae Night” no novo “Reggae Raï”. Depois do sucesso deste single em toda a comunidade magrebina, Tarik começa a produzir o álbum “Metisstyle”. Um projecto com que finalmente vai poder modernizar o raï, juntando-se a músicos como Khaled. Um álbum marcado por inovações como a talk box e as amostras de som, e pela diversidade de influências e de géneros musicais. A prová-lo estão as vendas, que ultrapassaram seis milhões de unidades."Torch Of Freedom", Matthias Vogt Trio (Alemanha) - world, contemporary jazz
A jornada prossegue com “Torch Of Freedom”, tema extraído do álbum “Changing Colours”, editado este ano pelo Matthias Vogt Trio. Precisamente o primeiro trabalho de composições próprias deste núcleo do projecto [re:jazz], formado por Matthias Vogt, pelo baixista Andreas Manns e pelo percussionista Volker Schmidt. Matthias Vogt é pianista de jazz, DJ, autor e produtor de música electrónica. Os seus três pólos musicais são a Motorcitysoul, filial electrónica do seu trabalho; o [re:jazz], ligação musical que procura pontos de contacto entre o mundo da electrónica e o jazz acústico; e o Matthias Vogt Trio, a célula principal do [re:jazz] e seu campo de experimentação musical. A música deste trio, que leva o jazz para outras direcções por explorar, é auto-contida, contemplativa e emocional. Neste trabalho, eles dão provas da sua qualidade artística, apresentando um som moderno e intimista, que se aproxima à pop e ao novo jazz electrónico."Guitarlandia", Rubin Steiner (França) - latin jazz, electronic
Rubin Steiner, nome dado ao projecto electrónico de Fred Landier, apresenta-nos o tema “Guitarlandia”, extraído do álbum “Wunderbar Drei”, editado em 2001. No trabalho de produção deste jovem francês sobressaem um gosto pronunciado pelo jazz e uma cultura musical desenvolvida à volta do hip-hop, trip-hop, drum’n’bass, house e break-beat. Rubin Steiner é natural de Tours, uma pequena cidade no Vale do Loire, onde até há poucos anos a música electrónica era praticamente desconhecida. Ainda que à distância de uma hora de comboio de Paris, as guitarras e o típico e entusiasmo provincial quase punk da cidade luz entusiasmaram o jovem músico. Landier tocou em várias bandas locais, a última delas de nome Merz, tornando-se conhecido por algum tempo na região. Mas as coisas mudaram de figura quando todos os membros do grupo decidiram comprar computadores e começar a compor sozinhos. Depois de em 1999 ter lançado “Lo-Fi Nu Jazz Vol.2”, álbum divertido e indisciplinado que avança pelos caminhos do jazz electrónico, Rubin Steiner edita então “Wunderbar Drei”, um trabalho já profissional que irá agradar e confundir ainda mais o público. No entanto, a música de Rubin Steiner permanece enérgica e caótica como sempre. São atmosferas distorcidas, influências desproporcionais e toques humorísticos que não o levam a mudar de direcção e a deixar de ter um som inovador e iconoclasta.
"Soy Callejero", Los Mocosos (EUA) - latin rock, pop, ska, salsa
Segue-se o tema “Soy Callejero”, dos Los Mocosos (traduzindo à letra, “Os Ranhosos” é um termo algo desconcertante, mas eles precisavam de um nome absurdo e espontâneo que designasse a banda). Esta banda de rock de bairro, nascida no distrito missionário de São Francisco, segue a tradição de músicos como Santana ou Malo em cruzar fronteiras culturais. Um híbrido musical da costa oeste americana que mistura soul e pop latina com ska, salsa, funk, swing, reggae e rock, acrescentando-lhe letras que falam da vida diária do seu bairro. “Shades of Brown”, o seu álbum de estreia, editado em 1998, combina elementos latinos, criando um género único. Uma mistura de influências num album eclético e poderoso que reflecte a realidade multicultural e multiracial de um país que Los Mocosos já percorreram por diversas vezes com Santana e Los Lobos, trazendo ao de cima as culturas hispânica e americana. No entanto, Los Mocosos não tiveram de criar esta selvagem mistura de culturas, até porque o crescente interesse pela world music tem vindo a mudar a paisagem musical americana, povoando-a de estilos latinos como o reggae e a dub jamaicana ou o son afro-cubano.
Los Lobos, um dos mais representativos e originais grupos dos anos 80, trazem-nos o tema “Flor de Huevo”, extraído do álbum “Del Este de Los Angeles (Just Another Band From East LA)”. Uma fusão de rock, blues, country, folk e rhythm & blues com música tradicional do México e da América Latina. Desde o seu modesto arranque nos bairos pobres na zona este de Los Angeles aos grandes palcos internacionais, Los Lobos têm destilado as suas vidas em canções. Em 1978, altura em que ganhavam a vida a tocar em casamentos e restaurantes mexicanos, decidiram gravar um álbum com as suas canções tex-mex, dando-lhes um cheirinho a rock & roll. O album “Del Este de Los Angeles” estabeleceu a identidade própria do grupo e serviu de rampa para que David Hidalgo e Louie Perez começassem a escrever os seus próprios temas. Sem se desviarem das tradições musicais do grupo, Los Lobos extraem as suas influências de múltiplos géneros, transformando-as num som que se foi refinando e expandindo em cada novo disco."Getting Happy", Ralph Robles (EUA) - latin soul, boogaloo
O programa encerra com o tema “Getting Happy” do trompetista Ralph Robles, extraído do álbum “Taking Over/Conquistando”, editado em 1999. Quando o boogaloo, uma dança latina com sabor a Nova Iorque, apareceu na década de 60 nos bairros de Harlem, Brooklyn e Bronx, Tito Puente, o rei do mambo, achou que era apenas uma coisa de miúdos. No entanto, este ritmo irresistível, de uma estética próxima do punk, com muito espaço para grandes solos instrumentais e arranjos quase matemáticos, era imparável. Em pouco tempo, o boogaloo distanciou-se do mambo e do cha cha cha, misturando a salsa cubana e outros ritmos latinos com a soul, o funky, o rock, a motown e o rhythm & blues. Influências musicais que marcaram os jovens cubanos e porto-riquenhos que então viviam em Nova Iorque. Uma geração que queria cantar em inglês, mas que acabou por o fazer em “espanholês”. São percussões cubanas, baseadas nas congas, bongos e timbales, e arranjos com trompetes e trombones, à companhia do piano, do saxofone barítono e dos coros. Apesar da euforia, o boogaloo foi um dos géneros latinos com uma vida mais curta, isto porque no espaço de uma década acabou por ser assimilado pela salsa.
sábado, 15 de julho de 2006
Emissão #17 - 15 Julho 2006
"Muiñeiras", Cristina Pato (Espanha) - celtic folk, folk-pop
A espontaneidade, frescura e energia de Cristina Pato está bem patente no tema “Muiñeiras”, original de Raquel Rodriguez, violinista dos Muntenrohi, banda que a diva da gaita-de-foles galega integrou na adolescência. Natural de Ourense, a jovem Cristina Pato tem tocado a solo e com grupos como os The Chieftains, Hevia, Vargas Blues Band ou as orquestras sinfónicas da Galiza e de Tenerife. Colaboraram também com ela, entre outros, José Peixoto, guitarrista dos Madredeus, e a portuguesa Marta Dias. Para além de gaiteira, Cristina Pato é pianista e compositora, aliando a perfeição técnica da música clássica com a espontaneidade da música popular. Uma carreira que começou aos quatro anos, altura em que quis seguir o exemplo da irmã mais velha, que já tocava gaita-de-foles. Foi na Real Banda de Gaitas de Ourense que esta ofereceu os seus primeiros recitais. Ao acabar o curso de piano em Barcelona, cumpriu a promessa feita à mãe de pintar o cabelo de verde, hoje sua imagem de marca. Cristina Pato, cujo sonho é ser directora de orquestra, foi a primeira gaiteira espanhola a editar um álbum a solo. Em 1999, com apenas 17 anos, lança “Tolemia” (palavra que em galego significa loucura), disco que vendeu quase 50 mil cópias e foi uma autêntica loucura, já que juntou 28 músicos e foi gravado em apenas 10 dias. São sons tradicionais à mistura com ritmos latinos e africanos, funky, pop, reggae ou blues, numa folk mestiça e divertida. Um trabalho em que colaboraram Carlos Castro, dos Fía Na Roca; Paco Juncal, ex-violinista dos Berrogüeto, os Blanco e os Beladona. Como quem toca guitarra eléctrica, Cristina Pato procura demonstrar de forma enérgica que a gaita-de-foles é um instrumento tradicional que extravasa as fronteiras da música celta."Raincheck", Kathryn Tickell (Reino Unido) - celtic music
As músicas do mundo prosseguem com Kathryn Tickell e o tema “Raincheck”, alusivo à tournée que esta tocadora de violino e de gaita-de-foles da Nortúmbria realizou na Turquia. Uma música extraída do seu sexto álbum “The Gathering”, editado em 1997. Juntamente com Ian Carr e Neil Harland, Kathryn mistura as suas composições com as melodias tradicionais daquele condado do nordeste de Inglaterra, criando uma folk ágil, profunda e ritmicamente complexa. Kathryn Tickell, que tem tocado em todo o mundo e gravado com nomes como os The Chieftains, Boys Of The Lough, Penguin Café Orchestra e Sting, conquistou os fãs de música celta experimental e de fusão, mantendo no entanto a veia tradicional. Ela começou a tocar gaita aos nove anos, inspirada pelo pai e por músicos como Willie Taylor, Will Atkinson, Joe Hutton, Richard Moscrop e Tom Hunter. Aos 16 anos lançava o seu primeiro álbum. Em 1990 forma a Kathryn Tickell Band, ano em que cria o Fundo dos Jovens Músicos para ajudar os jovens da região a desenvolverem o seu potencial musical. Entretanto, tem colaborado com os saxofonistas Andy Sheppard e John Surman, e desenvolvido programas para a rádio com jovens músicos da Grã-Bretanha. Em 2000 criava o Ensemble Mystical, projecto que reune músicos provenientes do mundo da música clássica, do jazz e da folk."Texiendo Suaños", Tejedor (Espanha) - asturian folk, celtic music
Os Tejedor trazem-nos o tema "Texiendo Suaños", extraído do álbum “Texedores de Suaños”. Este grupo asturiano, nascido em Avilés e formado pelos irmãos José Manuel, Javier e Eva Tejedor, é um dos grandes embaixadores da nova folk asturiana. Um potencial criativo e interpretativo comandado por José Manuel Tejedor, considerado o melhor gaiteiro asturiano da segunda metade do século XX. Nas melodias dos Tejedor reconhece-se a paixão destes professores pelo cancioneiro tradicional asturiano, que o ligam à influência celta, criando um som fresco, acústico e festivo. Considerado o melhor disco de folk em 1999, “Texedores de Suaños” reúne composições próprias e temas tradicionais das Astúrias, misturando as gaitas asturianas com a percussão, as flautas, o acordeão diatónico e o bodhrán. Mais tarde, os Tejedor adicionaram ao seu repertório novos elementos musicais que vão dos arranjos de cordas às programações electrónicas, tendo readaptado alguns temas tradicionais asturianos. O disco de estreia, produzido pela "vaca sagrada" da folk internacional Phil Cunningham (que participa também com o acordeão em algumas faixas), reuniu músicos privilegiados como Duncan Chishom (Wolfstone), Michael McGoldrick (Lúnasa, Capercaillie), James McKintosh (Shooglenifty, Afro Celt Sound System), Kepa Junkera e Chus Pedro (Nuberu)."Malaisha", Miriam Makeba (África do Sul) -
soul jazz, afro-popPara já segue-se a sul-africana Miriam Makeba, que nos traz o tema “Malaisha”, extraído do álbum “Hits & Highlights”. Ela foi a primeira mulher negra exilada por causa do apartheid e a primeira artista a colocar a música africana no mapa internacional. Miriam, que já gravou mais de 40 discos, cresceu a ouvir Duke Ellington, Billie Holiday e Ella Fitzgerald, sendo hoje capaz de cantar em nove línguas (francês, inglês, arábico, xhosa, kikongo, maninka, fula, nyanja e shona). Exilada por ter aparecido no filme “Come Back Africa”, a imperatriz da música africana passou 31 anos longe do seu país, lutando pelos direitos civis dos negros. A sua carreira começa na década de 50 nos Cuban Brothers. Miriam torna-se conhecida como vocalista da formação de jazz Manhattan Brothers, juntando-se mais tarde ao grupo vocal feminino Skylarks. Em 1959 o realizador americano Lionel Togosin convida Miriam a apresentar um documentário sobre a África do Sul no festival de Veneza, o que enfureceria as autoridades sul-africanas. Miriam Makeba exila-se então nos Estados Unidos, criando sucessos como “Pata Pata", "The Clique Song" ou "Malaika". O seu casamento com Stokely Carmichael, o líder radical dos Panteras Negras, traz-lhe problemas com as autoridades americanas. Exila-se então na Guiné-Conacri, até que em 1990 Nelson Mandela a convence a regressar ao seu país.
"Plus Rien M'Étonne", Tiken Jah Fakoly (Costa do Marfim) - afropop, mandingo, soukous, african reggae
A viagem musical continua com Tiken Jah Fakoly e o tema “Plus Rien Me M’Etonne” (Já nada me mete surpreende), extraído do seu sétimo álbum “Coup de Gueule”, lançado em 2004. Um disco em que Tiken Jah Fakoly segue os caminhos do reggae africano de Alpha Blondy, fazendo uma ponte com a Jamaica, e mergulhando na tradição mandingo sem no entanto deixar de permanecer ligado ao urbano. De etnia malinké, Fakoly é descendente do chefe guerreiro Fakoly Koumba Fakoly Daaba e membro de uma família de griots, tradicionalmente vistos como os depositários da tradição oral de uma família, povo ou país. Neste álbum, o porta-voz da jovem geração da Costa do Marfim, exilado entre Bamako e Paris, ataca os regimes de alguns presidentes africanos, denunciando a injustiça, a corrupção e as desigualidades que todavia subsistem no continente, bem como a hipocrisia das religiões monoteístas. Fakoly apresenta temas em francês e em dioula, a língua da sua etnia e que é falada no norte da Costa do Marfim, na Guiné-Conacri, no Mali e no Burkina-Faso. Um trabalho de novo realizado por Tyrone Downie, e que conta com os ritmos de Sly Dunbar e Robbie Shakespeare, que nos trazem os inconfundíveis sons do balafon, da kora e do ngoni. Outros artistas do mundo ajudam o rebelde tranquilo a alargar a sua música a outros horizontes. Entre eles estão Didier Awadi, dos Positive Black Soul e um dos fundadores do hip-hop senegalês, e os irmãos Amokrane de Zebda e Magyd Cherfi."Yasar Geidu", Mariam Hassan & Leyoad (Saara Ocidental) - haul, sahrawi music
A jornada prossegue com o tema “Yasar Geidu”, extraído do álbum “Mariem Hassan com Leyoad”, editado em 2002. Mariem Hassan, que a 29 de Julho vai estar no Festival de Músicas do Mundo de Sines, é uma das figuras máximas da música sarauí e símbolo da luta deste povo pela independência. Compositora, letrista e dona de uma voz excepcional, Mariem canta com uma intensidade dilacerante o amor, a fé e o sofrimento da população do Saara Ocidental, antiga colónia espanhola que em 1975 Marrocos e a Mauritânia dividiram entre si. À semelhança de dezenas de milhares de sarauís, a jovem Mariem Hassan foi então obrigada ao exílio, refugiando-se com a família durante 27 anos na parte mais inóspita do deserto do Saara, no sul da Argélia. A criação de grupos musicais foi uma forma encontrada por muitos para amenizar a vida dura dos acampamentos. Mariem Hassan, que actualmente vive em Sabadell (Barcelona), colabora há quase três décadas com diversos grupos de música sarauí, cantando na Europa, América e África. Tudo para que o mundo conheça a situação de um povo exilado e de uma artista que anseia poder regressar algum dia em liberdade a Smara, a cidade em que nasceu. Evocando os exilados e os mártires da guerra contra Marrocos, Mariem Hassan canta o haul, um blues do deserto, carregado de electricidade e hipnotismo, acompanhada pela percussão seca do tebal (tambor grande, tocado com as mãos pelas mulheres) e pelo tidinit (um alaúde rústico de quatro cordas, gradualmente substituído pela guitarra eléctrica), e esculpido pelas guitarras eléctricas."Ya Rayah [Sonar Remix]", Dahmane El Harrachi (Argélia) - raï, chaâbi
“Ya Rayah” (O Exilado), um dos clássicos da música árabe, apresenta-se-nos agora num remix electrónico que os Sonar fizeram do tema do argelino Dahamane El Harrachi, uma melodia cuja letra invoca a alienação sentida na pele pelos emigrantes. Abderahmane Amrani, tragicamente desaparecido em 1980 num acidente de viação, adoptou o nome artístico de Dahamane El Harrachi. Fê-lo não só para homenagear o bairro de El Harrach onde cresceu, mas também para não incomodar os princípios religiosos do pai, que era muezin na grande mesquita de Alger. Foi nestes bairros populosos que El Harrachi desenvolveu o seu sentido de observação e descobriu que queria cantar um chaâbi diferente do de El Anka ou Hadji M’rizek, ajustando-se a sua voz na perfeição a esse anseio. Em jovem trabalha com os mestres El Hadj Menouar e Khlifa Belkacem. Em 1949 parte para França, estabelecendo-se mais tarde em Paris. É nos cafés da emigração argelina que desenvolve a sua carreira de autor e intérprete. A sua música ganha maior notoriedade quando passa a compor temas mais sarcásticos, dissecando os males da sociedade utilizando para isso os ditados populares da época. Uma carreira que atinge o ponto máximo quando Rachid Taha pega no tema “Ya Errayeh Ouine M’Safer ?” (Para onde partes, para onde viajas tu?). Um clássico do raï, o género musical mais popular nas ruas da Argélia, com percussão bem vincada, e que foi redescoberto anos mais tarde por Rachid Taha, músico que o apresentou a uma audiência internacional.
"Venus Nabalera", Mau Mau (Itália) - folk-rock, latin rock
Seguem-se os italianos Mau Mau com o tema “Venus Nabalera”, extraído do álbum “Safari Beach”, editado em 2000. O nome desta banda de rock e folk, formada em Turim em 1991, baseia-se no grupo de libertação do Quénia da colonização inglesa. Esta tribo de seis elementos, cuja música expressa uma paixão pelos sons acústicos e secos, foi pioneira na mestiçagem da música italiana, combinando uma variedade de estilos para assim gerar uma linguagem feita de atmosferas do norte e do sul do Mediterrâneo. Com a percussão e o ritmo sempre presentes, as canções dos Mau Mau falam sobre a emigração, a pobreza, a fome, os subúrbios, as expectativas, o divertimento e mesmo de computadores. Para além do italiano e do dialecto piemontês, eles cantam em castelhano, inglês e francês. Entretanto, receberam vários prémios como o de Revelação Interncional no BAM Festival em Barcelona. Neste seu quinto trabalho, o ensemble da região de Piemonte conta com a colaboração de Sargento García, mas no currículo trazem outros músicos como Inti Illimani, Ivano Fossati e Manu Chao.
"Vänner Och Fränder", Garmarna (Suécia) - folk-rock
Os suecos Garmarna trazem-nos um tema extraído do álbum “Live”, editado em 2002. Esta banda de rock, formada em 1990, canta velhas lendas da música tradicional do seu país, falando de bruxas más, madrastas tenebrosas e de princesas indefesas. Convém explicar que na mitologia sueca os Garmarna eram os cães que guardavam a porta do inferno. Uma imagem metafórica que se transpõe facilmente para os cenários sonoros criados por este quinteto, que oscila entre as estéticas anglo-saxónicas e os ambientes da música tradicional sueca. No entanto, os Garmarna não fazem questão de perpetuar tradições. O que eles querem é tocar com a vontade do momento, com tudo o que isso tenha de eterno ou de efémero. Um som único, influenciado pelo rock, e que remistura a instrumentação antiga com amostras de batidas, harpas, violinos e guitarras distorcidas.
"Jackie ", Bossa Nostra (Itália) - latin lounge, bossa nova
Os italianos Bossa Nostra (grupo formado por Adriano Molinari, Luca Savazzi, Luigi Storchi, Mássimo Mussini e Stefano Carrara) fecham o programa com o tema “Jackie”, uma das várias versões, a maioria delas dançáveis, incluídas no álbum “Chico Desperado/Jackie”, editado em 1999. No total são cinco temas antigos e quatro remixes novos elaborados pelos Pasta Boys, Atjazz, East West Connection, Street Vibes e Pedro Van Der Volt, a maioria entre o deep house e o acid jazz. O universo sonoro dos Bossa Nostra, como o nome indica, é altamente influenciado pela música brasileira, baseando-se em instrumentos acustico-elétricos tocados com muita criatividade.
Jorge Costa

